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Marina Abramovic e outros artistas contemporâneos em Closer do Nine Inch Nails

julho 16, 2012

A artista performática Marina Abramovic sempre me comoveu. Eu me identifico muito com ela, seja observando suas inúmeras performances em vídeos, vendo ou lendo suas entrevistas.

Marina Abramovic na Revista Elle sérvia

Ela foi uma precursora em uma época em que ninguém queria se arriscar na performance e continuar somente nela, porque o que sempre vendeu é a arte visual, os desenhos e pinturas. Aí ela faz lindamente a performance “Art Must be Beautiful”, em que ela repete freneticamente enquanto penteia seus cabelos “Art must be beautiful, artist must be beutiful” (Arte deve ser bonita, o artista deve ser bonito).

E artista bonito é o vendável, e performance nunca foi para vender. Até que a esperta MTV usa o artifício da performance no vídeoclipe (que já era usado nos palcos pelos músicos e na arte pelos artistas). Mas onde estão os louros de quem praticamente começou com tudo isso?  Eu dei uma aula para minha oitava série em que Marina cita o excelente Damien Hirst e seu crânio de diamantes (“For the Love of God), que também era uma crítica à arte como mercadoria. Nessa entrevista Marina também fala sobre como sempre se sentiu: uma ovelha negra entre as ovelhas brancas. Mas depois ela percebe que também possui muito da ovelha branca. A ovelha negra simbolicamente, é a que nos diferencia e a ovelha branca a que nos iguala.  Eu li a entrevista com Paul Booth na Inked desse mês, o tatuador que tatuou muitos metalheads de bandas estrangeiras. Ele diz que antigamente ele possuía uma enorme necessidade de parecer diferente devido ao bulliyng sofrido na infância. Paul Booth era um punk na adolescência, essa também era uma forma dele ser respeitado, já que pelo olhar dos outros ele já era visto como diferente. Apesar de termos nossas escolhas individuais, que de certa maneira no diferenciam, somos também iguais em muitos aspectos à qualquer pessoa da sociedade. Pensamos em Abramovic e vemos que temos nossa parte de ovelha branca, pois somos fruto também da sociedade que nos rodeia e reproduzimos hábitos dessa sociedade. A arte deve ser uma reação às provocações externas (e internas).

A entrevista de Marina Abramovic no Canal Contemporâneo

Abramovic viveu durante muito tempo um romance com Ulay, com quem criou performances memoráveis como “Relation in Time” – “Relação com o Tempo” (1977).  Abramovic que adora trabalhar o conceito de tempo de duração em seus trabalhos, sentou-se de costas com Ulay e amarraram os cabelos um do outro em um laço. Lá ficaram, dezesseis horas sentados e imóveis. O que Marina Abramovic propõe é uma reflexão através do gestual e da metáfora dessa performance. A abordagem de Abramovic vai ao encontro de diversas filosofias orientais como o zen e o budismo e até mesmo o hinduísmo. Na entrevista ao Canal Contemporâneo que postei acima, ela indaga: – Como uma pessoa pode olhar tanto tempo para alguma coisa onde nada acontece por horas? Lembrando que o tempo linear que conhecemos não é o mesmo tempo cíclico dos orientais, podemos dizer que Marina Abramovic encara o tempo de uma maneira bastante oriental: o tempo é repetição, eterno retorno (como bem disse Nietzsche) e renovação . Essa teoria também é abordade pela alquimia na idade Média. Por isso um dos símbolos da alquimia é o uróboros, a  forma animal que pode ser uma serpente, um peixe ou um dragão, com a boca na cauda, indicando continuidade, eterno retorno.

A performance “Relation in Time” de Marina Abramovic me faz lembrar que na tradição híndu toda parte masculina tem sua contraparte feminina (Shakti).  Na mitologia híndu uma das três shakti de Shiva é Parvati, que é o símbolo de casamento ideal. Parvati só conquistou Shiva quando se retirou para meditar em Shiva abrindo mão de sua vida material.

Relation in Time – Marina Abramovic e Ulay – 1977

Shiva e Parvati (Sati)

Um dos líderes em performance musical que absorveu bastante de artes visuais (Marina Abramovic, Surrealismo, arte holandesa e outros artistas contemporâneos), é Trent Reznor. Em uma das performances mais interessantes semioticamente está o Nine Inch Nails no vídeoclipe de Closer, dirigido por Mark Romanek. O vídeoclipe que traz um cenário em que terror, religiosidade e sadomasoquismo se unem, serviu posteriormente de inspiração para o filme Seven de David Fincher.  O vídeoclipe funciona perfeitamente com a música, que fala de um amor obsessivo, em que fica clara a relação de dominação entre o casal.  No videoclipe Trent Reznor cita “Relation in Time” de Abramovic nessa cena:

Outra obra citada no videoclipe, são as instalações feitas de carcaças de animais, do artista John LeKay. LeKay se inspirou no trabalho de Francis Bacon e uma pintura de um boi abatido do artista Rembrandt para fazer uma série de instalações feitas com carne em 1986/1987. A instalação de 1987 (This is my Body, this is my Blood – Este é meu corpo, este é meu sangue), uma carcaça de cordeiro, serviu de inspiração no clipe, provavelmente por conta de sua simbologia religiosa.

A obra de LeKay, This is my Body, this is my Blood (1987)

Cena do vídeoclipe do NIN com carcaça de animal

Trent Reznor também aparece com uma concha no clipe, que nos faz uma referência à sequência de Fibonacci. Esse valor matemático ocorre com frequência e  possui um padrão de repetição dentro da natureza como nas conchas, flores, DNA humano… Daí metaforicamente ligarmos esse padrão também à alguns tipos de padrões repetitivos nas nossas próprias ações. E aí? esse conceito não vai de encontro à repetição e o conceito de tempo cíclico abordado na obra de Marina Abramovic?

Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a realizar um trabalho por toda a eternidade: empurrar uma pedra até a parte baixa de uma montanha, para em seguida quando a pedra chegasse  abaixo, Sísifo empurrasse novamente a pedra até o alto da montanha. Tudo isso sem descansar. O inferno é a repetição! O amor obsessivo, deturpado e sádico de Trent Reznor em Closer está destruindo sua mente!

Há também uma citação à um tipo de obra popular nos Países Baixos e Norte da Europa no século XVI e XVII, Vanitas. Vanitas está ligada às vaidades terrenas, sempre tem um significado ligado à efemeridade a vida humana (leia mais aqui). A Vanitas de Trent Reznor possui  o que parece ser seu rosto recortado (me faz lembrar o serial killer Ed Gein) no lugar o crânio recorrente em pinturas. Inclusive, alguns elementos visuais do filme “Texas Chainsaw Massacre” – 1974, são muito utilizados em todo clipe.

Vanitas de Franciscus Gysbrechts (1672-1676)

Vanitas de Trent Reznor

Só lembrando, há um post falando sobre modern primitive (que foi muito utilizado no gótico industrial):

http://alienagratia.wordpress.com/2010/12/22/daron-malakian-apreciador-do-modern-primitive/

E outro falando sobre as primeiras relações entre arte e gótico industrial:

http://alienagratia.wordpress.com/2010/05/27/coum-transmissions/

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8 Comentários leave one →
  1. Dan permalink
    julho 18, 2012 2:27 pm

    Quanta informação interessante em um post só hahaha
    Parabéns.
    Beijos e boa semana
    skullsofbeauty.wordpress.com

    • julho 18, 2012 3:50 pm

      Obrigada Dan! Obrigada! Beijos e boa semana para você também!

  2. Dan permalink
    julho 24, 2012 9:08 pm

    Oi Helena, obrigada pelo seu comentário no meu blog!
    Quanto a parceria, aceito sim!
    Beijos e bom restinho de terça-feira.
    skullsofbeauty.wordpress.com

    • agosto 15, 2012 1:43 pm

      De nada Dan, seu blog é legal. Dan, você tem um banner do seu blog? Pode me enviar o código? Vou colocar aqui no blog. Beijos!

  3. agosto 21, 2012 5:18 pm

    OI Helena! Obrigada por me “apresentar” ao trabalho de Marina. Eu já havia lido o nome dela por aí algumas vezes, mas nunca havia parado pra pesquisar. Interessante saber que ela é uma das responsáveis pela criação das performances em videoclips.
    Quanto à ovelha negra e ovelha branca, fiz uma reflexão é constatei que é verdade, nós (pessoas mais alternativas, questionadoras) temos parte das duas, mas ao mesmo tempo reflito: algumas pessoas tem só a ovelha branca em si?
    (também adoro o trabalho do Damien ^^)
    Como foi dito acima, quanta informação interessante numa postagem só, parabéns! A partir de agora assistirei o clip de Closer com outros olhos.
    bjs!

    • setembro 23, 2012 9:41 am

      De nada Sana. Marina Abramovic tem um discurso que se aproxima muito dos nossos gostos. Sobre uma pessoa ter somente a ovelha branca, acho muito difícil, mas há pessoas que sabem fingir muito bem. Todo mundo tem algo que o perturba mas nem todos tem coragem de assumir isso para os outros e para si mesmo. Obrigada Sana!

  4. Veronica Garcia (V.G.) permalink
    outubro 5, 2012 1:19 am

    Você é perfeita! Moda, cinema, zumbis, heavy metal, hard rock, mitologia, góticas, Dalí… Finalmente alguém com quem me identifico! Eu quero me formar em moda e direção de cinema, taí!

    • outubro 6, 2012 2:22 pm

      Veronica, assim fico sem graça X)…Adoro esses assuntos! Obrigada por se identificar comigo. Moda e direção de cinema são profissões muito legais. Sucesso nas suas escolhas! :D

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