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Edward Mãos de Tesoura

março 6, 2010

Um dos filmes que eu mais gostava na infância era Edward Mãos de Tesoura, eu me identificava com o jeito estranho e ingênuo de Edward. Então quando o Afonso pediu um trabalho de pós-graduação em que analisasse o figurino de um filme, a escolha óbvia foi o filme de Tim Burton. Uma das coisas que sempre gostei foi a sensibilidade de Edward, o tipo de artista Romântico que encarnava, capaz de ser tábua de salvação em um mundo de aparências. Mas eu sou uma artista de formação Romântica, que gosta de Füssli e William Blake. Então essa idéia de artista sublime sempre me atraiu.


Veja aí o que saiu:

O filme de Tim Burton, “Edward Mãos de Tesoura” é uma espécie de “conto de fadas” gótico. No início do filme quando Peg chega na mansão empoeirada em que mora Edward, há uma sensação de suspense. A certeza de conto de fadas é enfatizada quando percebemos que a escala da casa e dos móveis não é a mesma escala dos personagens, que são muito menores que a grandeza da casa em estilo gótico europeu. Essa cena possui uma influência de filmes expressionistas como “O Gabinete do Dr. Caligari” e “Metrópolis”.

Edward é uma espécie de Frankenstein, remete à obra de Mary Shelley, “Frankenstein” e também a história de “Pinóquio” e “A Bela e a Fera”. Ao contrário do cientista Frankenstein, o pai de Edward (como em Pinóquio) criou Edward com amor para que fosse seu filho. Porém o pai de Edward morre antes de terminar sua obra. E a parte que falta em Edward são suas mãos, no lugar delas ele possui tesouras. Estas acabam cortando o rosto de Edward até mesmo em um ato simples como se coçar.

Colleen Atwood é a responsável pelo figurino de Edward mãos de tesoura, a parceria com Tim Burton começa nesse filme. Ela possui uma criação dark e ligada à fantasia que acabou por transformar sua criação em uma marca dos filmes de Tim Burton. Colleen é uma figurinista que consegue captar as expressões desejadas pelo diretor Tim Burton, unir essa subjetividade ao elenco e demonstrá-la nas vestes das personagens. Em relação à fidelidade histórica, o figurino de Edward possui liberdade maior e não é fiel à época em que a história é narrada. Seu figurino é diferente de todos os demais personagens do filme. Isso se deve ao fato de a personagem ser criado artificialmente e diferente das outras pessoas. O objetivo é ressaltar essa diferença no figurino, pois ela será fundamental para a narrativa e coerência da história.

Tim Burton e Colleen foram bastante audaciosos e criativos quanto à escolha de um período específico, os anos de 1970/1980 para a criação do figurino de Edward. Ele possui um visual gótico que lembra muito o período Batcave ou Deathrocker. Batcave era o nome do bar onde acredita-se que surgiu a subcultura gótica. Uma das características desse estilo é o cabelo igual ao do Edward. A maquiagem branca no rosto, com olhos e boca “carregados” também são características desse estilo. O Batcave ou Deathrock possui influências do Punk Rock e temas de filmes de terror. As roupas de Edward, com diversas fivelas, recortes e costuras também são uma referência punk, ao mesmo tempo essa roupa de couro parece “armadura” que dificulta seus movimentos. A roupa de Edward compõe a sensação de estranheza e deslocamento que Edward possui na narrativa e em relação aos outros personagens. Parece que a roupa de Edward, assim como seu corpo foram feitos de retalhos. Isso faz com que haja mais coerência ao aspecto Frankenstein de Edward. Suas cicatrizes fazem reiterar essa proposta em conjunto com sua maquiagem, cabelos e roupa.

A história acontece no período dos anos de 1950/1960. A filha de Peg, Kim, usa uma silhueta famosa: o “New Look” de Christian Dior com a cintura marcada e saia ampla. Todos os jovens do filme possuem um estilo semelhante aos anos de 1950 : suéter, cardigãs de malha, jeans, jaquetas coloridas, bobby socks (meias soquete) e tênis. Um estilo college que teve origem no sportwear. O figurino de Peg, a vendedora do Avon que encontra Edward, é um tailleur de linhas retas, gola e chapéu cor de rosa. Este figurino lembra os tailleurs e vestidos de André Courrèges e Pierre Cardin. As vizinhas também seguem a mesma linha de vestidos de formas retas, algumas com calça cigarrete e suéter, como a personagem Joyce Monroe no início do filme. Podemos observar algumas vizinhas com vestidos trapézio como o lançado por Yves Saint-Laurent e a influência da moda unissex. Também há uma influência dos anos de 1960 nas estampas da roupas. A maquiagem ao estilo anos 1960, possui uma ênfase nos olhos e os cabelos com raiz alta impecáveis. Além disso, podemos notar o uso das franjas, como na personagem Kim. Porém podemos perceber elementos soltos dos anos de 1980 em alguns cabelos, acessórios e maquiagem. No figurino masculino do filme, os jovens usam “t-shirts” coloridas e listradas e calças jeans ajustadas. Em oposição aosrapazes, os homens mais velhos como o marido de Peg, Bill Boggs usam o paletó comprido, camisas lisas e estampadas, calça social e bermuda em cores sóbrias. O ator Vincent Price, conhecido por sua atuação em filmes de terror, faz o papel de inventor com um figurino e interpretação que são uma referência aos filmes que ele interpretava nos anos de 1950 e 1960.

Quanto à arquitetura, as casas da cidade são iguais, padronizadas e coloridas. Assim como os carros que combinam suas cores e as cores das casas. As roupas dos moradores também são bastante coloridas. Essa padronização faz o contraste entre os moradores da cidade e Edward ser ainda maior. Quando Peg leva Edward para a cidade, ele parece estar muito feliz em ver tantas cores, novidades e um lugar que não parece com o ambiente sombrio em que vivia. O contraste da aparência de Edward e o restante das personagens do filme é interessante porque é também um contraste de caráter. Edward é ingênuo e encantador, possui uma aparência aterrorizante para as pessoas. Alguns moradores chegam a implicar com sua aparência diferente do convencional. Mas suas mãos que cortam tudo que tocam também são capazes de fazer coisas extraordinárias e ele começa a ser visto de forma positiva pelo que é capaz de construir. Posteriormente Edward é acusado de algo que não cometeu, porém é cômodo acreditar em uma pessoa e não em uma criatura estranha que possui tesouras no lugar das mãos. Edward passa a ser visto como um monstro, um perigo em potencial. A partir do momento que Edward passa a não ser mais útil para os moradores da cidade, seja cortando os cabelos, pêlos dos cachorros ou os arbustos de seus jardins ele passa a ser visto de uma maneira diferente.

O filme de Tim Burton, “Edward Mãos de Tesoura” marcou a história do cinema com o figurino de Edward. Tal caracterização é facilmente reconhecível e parodiada. O figurino tornou-se imprescindível para a coerência da história narrada, além de não ser estereotipado como um “Frankestein” convencional. Uma das cenas mais bonitas e conhecidas do cinema é a de Edward fazendo esculturas de gelo em homenagem a sua amada Kim, enquanto ela rodopia seu vestido. O figurino complementa as belas cenas do filme, sem contudo chamar mais atenção que a história narrada.

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2 Comentários leave one →
  1. Eduarda Lira permalink
    agosto 12, 2012 5:39 pm

    Olá Helena,
    estou me formando este ano e pretendo fazer meu trabalho de conclusão com tema semelhante. Você poderia me enviar seu trabalho para eu utilizar como referência, ou indicar alguns livros sobre a estética gótica, Tim Burton, figurinos e cinema, enfim, qualquer ajuda é bem vinda! 🙂
    Desde já agradeço,
    Eduarda.

    • agosto 15, 2012 1:48 pm

      Eduarda, qual o e-mail que você utiliza? Pode ser o que está indicado no comentário (hotmail)? Dê-me seu e-mail que envio meu trabalho para referência. Mando também referências de livros. É um prazer ajudar! Beijos!

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