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A onda

maio 31, 2010
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Como eu sou professora, sempre tem uns filmes que povoam minha mente. E não é nada do tipo “Ao Mestre com Carinho”.  Prefiro  “O sorrisso de Mona Lisa”, “Sociedade dos Poetas Mortos”, “O Aprendiz” e agora “A onda”. Algo comum a todos esses filmes é a figura do professor, mas não um professor qualquer. O professor que desperta os alunos. Não vou falar aqui das propostas feministas através da arte do filme “O sorriso de Mona Lisa” ou amor pela literatura e teatro de “Sociedade dos Poetas Mortos” (eu fui uma adolescente que cresceu vendo esse filme)…  Afinal,  o professor tem o poder subversivo de “mudar” a vida dos alunos através do conhecimento.  Em “O Aprendiz”, baseado em um conto chamado “Apt Pupil” de Stephen King, um aluno nerd interessado pela história da Segunda Guerra Mundial  (conhecimento obtido na escola através da aula de História), descobre que seu vizinho é um oficial nazista aposentado. O garoto (o ótimo Brad Renfro, que morreu de maneira dramática na vida real, overdose aos 25 anos), ameaça o oficial nazista: se ele não contar e mostrar a ele tudo que acontecia nos campos de concentração, o oficial será denunciado. O aluno gênio terá um final  melhor no filme que no livro, no entanto, o nazista não.


No filme alemão “Die Welle”, “A onda”, o professor Rainer Weger é  um fã de punk rock e um professor à maneira moderna, que adora lecionar pra seus alunos adolescentes e propõe novas didáticas. Decepcionado por não poder dar aulas sobre anarquia (não entregou seu planejamento, acarretando a substituição de Rainer por outro professor mais velho) é obrigado a dar aulas sobre autocracia.  Raine começa as aulas sobre autocracia, o assunto introdutório da aula é como o nazismo conseguiu conquistar tantos adeptos. Quais foram os motivos? Prevendo a falta de interesse dos alunos com um assunto anteriormente discutido em outras aulas, Rainer propõe a adaptação de um regime totalitário dentro de sua classe. Os alunos aos poucos começam a fazer, orientados pelo professor ( o líder/ditador), tudo que é proposto em um regime totalitário, criando um uniforme, uma rigidez no falar e sentar, uma saudação para o grupo… O  que Raine não pode imaginar é que seus alunos se empolgariam de tal forma que começariam a acreditar na real unidade deles como grupo ideológico, seja comprando briga com os punks, impedindo outros alunos de entrarem no grupo ou fazendo com que todos usem o cumprimento do grupo chamado “A Onda”.

O filme foi baseado em uma história real de um professor (Rum Jones) que fez a mesma proposta aos alunos em 1967. O grupo surgiu na Califórnia e chamava-se “A terceira Onda”. O nome partiu do princípio que em uma série de ondas no mar, a terceira é a mais forte. Jones escreve que começou com coisas simples, como a disciplina na classe e conseguiu converter a sua classe de história em um grupo com um grande sentido de propósito. O experimento obteve vida própria, com alunos de toda a escola se unindo a ele. O tal experimento tomou enormes proporções na escola, preocupando o professor e fazendo com que ele o detivesse antes que as coisas ficassem piores. O professor esclareceu os alunos sobre os perigos dos regimes autocráticos, em que o poder é centralizado nas mãos de um só líder  O filme é recheado de boas argumentações,  trata-se de uma metáfora que propõe a reflexão de como a sociedade pode servir como massa de manobra nas mãos de poderosos.

Outro ponto alto do filme é a trilha sonora, altamente fundamentada nos ricos diálogos. The Subways ,The Hives, Digitalism  e uma versão de “Rock’n’roll high school” do Ramones logo no início do filme em que o professor canta no carro à caminho da escola, vestido em uma camiseta do Ramones.

Coincidentemente, antes de ver esse filme eu estava lendo sobre o espetáculo “Alegria” do Cirque du Soleil. A história de Alegria fala sobre o mau uso do poder, seja por reis, seja por tiranos ou ditadores e sobre a perseverança dos pequenos de bom coração.

Professor Rainer: lembra daquela geração que pensava em mudar o mundo?

Alguém aí já viu “O grande ditador”?


4 Comentários leave one →
  1. maio 31, 2010 10:05 pm

    Eu achei “Die Welle” um filme fantástico pelo fato de que o professor fornece aos alunos uma identidade, algo pelo que lutar – que muitos estudiosos afirmam ser o que faz de nós uma geração perdida, que não tem ideais. No entanto, talvez, o aspecto que mais me seduz no filme é a vulnerabilidade do ser humano a uma outra personalidade manipuladora. Somos fracos, afinal.

  2. junho 1, 2010 10:38 am

    Concordo com você Mme.

  3. Modeestiin permalink
    agosto 27, 2012 1:24 am

    Também concordo com você Mme .

    • setembro 23, 2012 9:51 am

      Eu disse que concordo com Mme. porque quando eu escrevi esse texto pensava no mau e no bom uso do poder. Como sou professora, vejo que às vezes os alunos adolescentes são muito influenciados pelo que falo e começam a enxergar o que digo, minhas reflexões, como uma verdade absoluta. E tenho vontade que eles se expressem da maneira adequada, ouvindo o que eles mesmo tem a dizer e não me seguindo cegamente. Há uma diferença entre esclarecer a massa e transformá-la em massa de manobra. Acho que o que o professor de Die Welle tinha ótimas intenções, mas o fim nos mostra que algo deu errado. Isso me faz lembrar da gravura de Goya, “O Sono da Razão produz monstros”. Hoje vejo meu texto e acho que falta essa complementação.

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