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O grotesco como intenção artística – 2ª Parte

janeiro 29, 2011

  

  

“As pessoas bonitas, as pessoas bonitas/ É tudo relativo ao tamanho da torre da sua igreja/Você não pode ver a floresta pelas árvores(…)/Os fracos estão aí para justificar os fortes/Ei você, o que você vê? / Algo bonito? Algo livre?”

 (Marilyn Manson, The Beautiful People)

 

“Tem muita gente bonita, bonita mesmo/Que quer te deixar doidão/Mas todos os bonitos, bonitos mesmo/Te deixarão deprimido e te surpreenderão.”

(Marilyn Manson, The dope show)

 

  

Marilyn Manson – Gênero: Industrial/Metal/Gótico

 

  

Quando eu era adolescente, parecia que havia ainda um pouco de espaço para o rock na MTV. Lembro que eu chegava em casa da escola e ia direto para ver o Top 10 que tinha Offspring, Rage Against the Machine, Silverchair e Marilyn Manson (lembrando só o que eu gostava na época). Lembro que eu e meus colegas não tínhamos tanta coragem de asumir um estilo diferente dos outros. Eu tinha um colega que gostava do Marilyn Manson e putz, como ele era estranho. E como o Manson era estranho também e causava muito na minha época! As pessoas tinham medo dele.  A maior polêmica em torno do Manson em “Dope Show” era se ele era uma mulher ou um homem. Ou os dois, afinal… o  que ele era?

 

 

 

Uma estética muito forte e obscura que só mais tarde eu iria absorver, a estética Industrial. Rivethead para ser mais precisa.  Não eram todos que tinham coragem de ver a estranheza de Manson, muito menos seus assuntos polêmicos. Manson assumiu o “shock rock” de Alice Cooper levando-o às últimas consequências. Falar de rock industrial é difícil, porque o movimento rivethead não gosta de seguir padrões no estilo. Eles assumem um lado militarista ( a grande maioria é anti-militarista), além de criticar instituições que dominam moralmente os indivíduos, como o Estado, as Igrejas e o próprio capitalismo por si só. Possuem grande atração pelo fetichismo, Manson já usou vários corsets, ligas, algemas e luvas, botas plataformas gigantescas, maquiagem dramática e lentes ameaçadoras. Androginia é o forte de Manson, herdada diretamente da influência de Alice Cooper, a começar pelo nome artístico que conjuga Marilyn Monroe (Manson é fã assumido das pin-ups, profundo conhecedor do assunto, não é a toa que foi casado com Dita Von Teese) e Charles Manson. Ambos os nomes, do assassino Charles Manson e da diva Marilyn Monroe lembram o conceito de “Celebritarianism” cultivado por Manson . Além disso, o gosto por personagens extravagantes e roupas femininas denunciam a admiração de Manson pelo glam rock.

 

Inspiração visual no glam rock de Bowie, Brian Eno e New York Dolls

  

 

 

 

 

 

No vídeo de “The Dope Show”

 

 

 

Várias facetas do Shock Rock Industrial: a maquiagem que o torna mais “bonito”,

 

 

  

Fetichismo no corset e meias 7/8,

 

 

Inspiração na replicante Pris de Blade Runner,

 

 

 

 

Uma versão do uniforme nazista schutzstaffel, com uma totenkopf  (insígnia de crânio humano)…

 

 

 

 

Manson lançou o conceito de “Coma White”, em “Mechanical Animals”, um estado intangível de perfeição e idealização que só nos faz correr atrás de coisas inalcançáveis, nos tornando cada vez mais mecânicos. “Coma White” – uma pílula para te entorpecer, o próprio CD de Mechanical Animals é uma pílula. Uma mensagem escondida dentro do encarte serve como prenúncio: “Até as máquinas podem ver que estamos mortos”. Manson assumiu o militarismo em “The Golden Age Grotesque”, focando na estética da guerra, os uniformes militares do exército alemão, a era de ouro das pin-ups e do cinema, lembrando que o próprio Manson também é artista plástico, desenvolvendo exposições periódicas. É notória a parceria de Manson e Gottfried Helnwein (https://alienagratia.wordpress.com/2010/06/04/gottfried-helnwein/), o cantor envereda-se pela arte o tempo todo em sua música buscando inspirações sombrias e vistas por muitos como “feias”, Manson não faz questão alguma de ser esteticamente agradável, porém essa estratégia o torna consumível porque ele é empresário de suas loucuras e sabe vendê-las muito bem.

Outro conceito, “celebritarianism” é uma espécie de “culto” às celebridades, que tiveram seus rostos exaustivamente expostos e foram reverenciadas mais na morte do que em vida, tornando-se uma espécie de “santos”, uma iconologia semelhante à Jesus Cristo. Vale lembrar que Manson foi influenciado por Warhol, que fazia várias repetições da mesma celebridade em suas serigrafias que conceitualmente poderiam ser explicadas pelo esvaziamento da imagem provocada por sua exposição diária em meios de comunicação, e “consumo” violento de celebridades, teorizado por Manson ( e toda a escola de Frankfurt – teoria da comunicação). Transformação de Kennedy em mártir, na cultura popular americana em “Coma White”:

 

Kennedy e Jacqueline

 

 

Manson em cena do vídeo de “Coma White”

 

 

 

Esse site é imprescindível para saber mais sobre os conceitos que cercam a obra de Manson:  http://www.nachtkabarett.com/Grotesque

 

Esse post ficou maior que eu esperava  e pode ter certeza que faltou muita coisa. No próximo post fecho o ciclo do “Grotesco como intenção artística”. Aguardem!

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4 Comentários leave one →
  1. fevereiro 3, 2011 6:22 am

    Adorei o post Helena!
    Amo o Manson, e adorei saber um pouco mais sobre ele.

    Essa parte do seu texto, foi a que mais me chamou atenção:
    “Manson não faz questão alguma de ser esteticamente agradável, porém essa estratégia o torna consumível porque ele é empresário de suas loucuras e sabe vendê-las muito bem.”

    É exatamente isso. Muita gente acusa o Manson de ser mais “comercial”, mas eu acho isso muito bom, é um jeito de deixar mais “acessível”, diferentes tipos de artes, como sua arte grotesca, que se não fosse “comercial” talvez não seria uma porta de entrada do mundo mainstream para o mundo alternativo.

    Beijos

    • fevereiro 4, 2011 5:19 pm

      Deze, eu concordo com você. O Manson é muito criticado por ser comercial, mas o rock é todo cultura de massa, que começou underground mas hoje é completamente “escancarado”, só que esvaziado de seu significado. Todo mundo “gosta” de rock, mas poucos possuem o domínio da sua linguagem para entendê-la. Se não fosse o Manson, acho que o Industrial nunca teria se tornado conhecido. E nós mesmas começamos a gostar de rock com o livre acesso midiático, MTV, internet e revistas para depois decifrá-lo e conhecer outras bandas de diferentes linguagens. Adorei o comentário Deze, com todas as artes isso se repete. Tem que haver uma porta de entrada mainstream para o universo alternativo e quem não enxerga essa realidade pode ser muito bom, mas nunca terá seu valor reconhecido. Isso não quer dizer se vender para algo que não acredita, mas adaptar aquilo que se acredita. 🙂

  2. março 6, 2011 9:48 pm

    Eu me lembro que Manson foi um dos meus primeiros “ídolos” de adolescencia e que gostar dele na época era receber um carimbo de “bizarra” bem no meio da testa. Realmente ele chocava! Se vc queria chocar a escola ou seus pais, tinha que ser fã de Manson. A fase passou. Hoje ele já está “batido”, mas puxa, na época ele fez um trabalho muito bem feito! E sem falar que ele é muito inteligente e bom nas artes .

    • março 9, 2011 11:39 pm

      Verdade Sana, você foi adolescente na mesma época que eu. Lembro que realmente ele chocava e muito, boas lembranças. Foi uma das preferências de adolescência que ficou, o cara é inteligente mesmo. Já viu ele falando em “Tiros em Columbine”? Aliás toda vez que ele fala, vejo uma coerência e um entendimento incrível sobre tudo, arte inclusive. Ele conhece muito sobre arte contemporânea e arte moderna, deve ler muito e ser estudioso do tema.

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