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A arte e suas representações sobre a finitude da vida

agosto 17, 2011

Alegoria do tempo desvendando a verdade – Jean François De Troy (1733)

“Vocês não são especiais. Você não é um floco de neve bonito ou original. Você é a mesma matéria orgânica decadente como todo o resto. ”  (Clube da Luta)

“É uma coisa curiosa a morte (…). Todos nós sabemos que o nosso tempo neste mundo é limitado e que eventualmente todos nós acabaremos embaixo de algum lençol para nunca mais despertar. E, no entanto, é sempre uma surpresa quando isso acontece com alguém que conhecemos.” ( Raiz-Forte – Lemony Snicket)

“Porque é uma sinfonia agridoce, esta vida/Tente fazer finais encaixarem/ Você é um escravo do dinheiro, então você morre…” (Bittersweet Symphony – The Verve)

Começo esse post com uma pintura de De Troy, porque acredito que a maturidade nos revela muitas coisas, entre elas o verdadeiro valor da vida e sua finitude. O tempo acaba despertando a verdade em nós. A arte nos revela diferentes leituras sobre a morte, de acordo com o período em que é produzida. Vanitas são uma espécie de natureza morta (still life) que proliferou na Europa nórdica e Países Baixos durante os séculos XVI e XVII. Embora Vanitas e o tema morte sejam comuns a qualquer cultura.  No período medieval era comum essa arte estar ligada a práticas funerárias e o termo “Memento Mori” (Pensa na morte), que seria algo como “lembra-te homem de que morrerás um dia”, o que na Idade Média celebrava um ser humano ligado mais ao espírito que à matéria.  No Renascimento passou a ser uma maneira de fazer o homem se lembrar de que a vida é muito curta para viver somente para agradar os outros  e cultivar futilidades.

Pieter Claesz – Vanitas quiet life

Há elementos que são constantes nesse tema, como coisas apodrecidas (que lembram o envelhecimento), os relógios e ampulhetas (o tempo e a fugaz existência terrena). Também são comuns os instrumentos musicais, flores, borboletas e caveiras. O interessante desse tipo de arte, é a união de elementos que lembram a vida e outros a morte, como a dualidade de nossa existência. Mas qual o antecedfente desse tipo de arte?  Podemos apontar o auge do flerte do homem (e artista) com a morte, na Idade Média.

Hans Holbein, o Moço – Gravuras de “A dança macabra” (1497-1543)

Detalhe de caveira ao lado da assinatura de Albrecht Dürer, 1513 – O Cavaleiro, a morte e o Diabo

A própria figura do Plague Doctor, doutor de pragas na Idade Média é usada ainda hoje como representação ligada à morte. O doutor de pragas na Europa possuía um conhecimento empírico ligado aos humores: sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático. O correto é que nenhum desses humores proliferasse sobre o outro, então eram feitos tratamentos para equilíbrio dos humores no paciente, entre eles sangrias.  A teoria miasmática considerava que doenças como peste negra e a cólera eram causadas por uma forma nociva de ar (mau ar), miasma significa poluição. Os diversos tratados de saúde eram elaborados na tentativa de afastar a peste, muitas vezes de uma maneira supersticiosa, por exemplo, as pessoas deveriam andar contra o vento oeste que era propício ao avanço da peste. Os plague doctors vestiam uma máscara de bico de pássaro que ajudava a praga a sair do corpo do doente. Acreditava-se que a praga (em sua maioria a peste bubônica, mas haviam outros tipos de epidemia)  era transmitida por pássaros e a função da máscara era justamente atrair a praga para curar o convalescente. Para a proteção do Plague Doctor, os olhos da máscara eram feitos em um material vermelho que acreditavam ser impermeável às doenças. Dentro da máscara havia diversos itens aromáticos, para proteção do ar pútrido que era visto como causa da infecção. Era também usado pelo doutor uma ponteira de madeira que era usada para examinar o paciente sem tocá-lo.

Desenho de Plague Doctor

Um plague doctor consola uma mulher que acaba de sofrer uma perda na obra do artista contemporâneo Bryn Barnard – The Plague Doctor

 

Plague Doctors no filme protagonizado por Nicolas Cage, Caça às Bruxas

Nessa época em que a peste se alastrou na Europa as representações de esqueletos “levando” pessoas embora era muito comum. Podemos apontar também as representações dramáticas da morte ou alusões à própria através de pinturas do Barroco e Rococó, como as representações de Nicolas Poussin. No século XVII o nome Arcádia evocava a tradição pastoral, o gênero poético que se desenvolveria desde a Grécia clássica. A idéia principal de Arcádia seria a vida dos pastores ao ar livre,  recolhendo ovelhas durante o verão. Nesse clima os pastores tinham tempo de sobra para tocar flauta, compor poemas e talvez até declamá-los em sarau. Arcádia era o paraíso montanhoso da região do Peloponeso, habitada pelos árcades: pastores e caçadores. Era o paraíso romântico governado por Pã e habitado por ninfas, sátiros, centauros e bacantes.

A frase “Et in Arcadia Ego” não é encontrada em nenhuma fonte clássica conhecida, podendo significar em seu contexto original: “Eu, aquele que está morto, também vivi na Arcádia” ou “Eu, a morte, também estou na Arcádia”. Eis que no quadro de Poussin, Et in Arcadia Ego, quatro jovens pastores encontram uma tumba onde há essa frase escrita. Poussin nos faz perceber o quanto o ser humano é vulnerável em sua individualidade. “Na verdade os pastores nos dão a impressão de terem encontrado o primeiro indício da morte. É também o indício de que sua bela terra tem história, de que pessoas viveram e morreram ali, no entanto essa história foi totalmente esquecida” (BECKETT). Ainda sobre Beckett, o teórico nos fala que o que dá força a essa pintura são nossas próprias histórias pessoais. Transpomos o marco da maturidade quando adquirimos uma compreensão emocional da morte e de nossa própria insignificância relativa ao contexto da história humana. Gerações incontáveis viveram e viverão antes e depois de nós. Em todo o esplendor de sua bela juventude, os pastores precisam aceitar isso.

 

Nicolas Poussin, Et in Arcadia ego, 1638-1640: A amarga descoberta da morte ainda na juventude. Ela (a morte) também habita no paraíso terreno. 

Leia História da Pintura de Wendy Beckett!

11 Comentários leave one →
  1. agosto 24, 2011 12:31 am

    Belo post;

    Sobretudo em se tratando de tal assunto.

  2. agosto 24, 2011 12:42 am

    (Haveria algum e-mail através do qual eu pudesse lhe enviar sugestões?)

  3. Sana permalink
    setembro 6, 2011 7:12 pm

    Helena você tocou num tema que adoro!
    Um dos motivos de eu tera adotado “skull” como nick, é minha paixão pelas caveiras e sua simbologia, comumente ligada pelos temas memento mori/vanitas. Esse é um tema que sou fascinada: vida, morte e simbologias das caveiras.
    Tudo começou quando eu tinha uns 10 anos e uma gatinha minha morreu atropelada. Aquilo me marcou profundamente pois eu não sabia e não tinha sido ensinada em como lidar com a morte e começei a me interessar pelo tema. Minha mãe estudou artes plásticas e tinha muitos livros de arte com algumas obras com esses temas. Eu me debruçava sobre eles fascinada: “porque existe a morte, porque exite a vida. Tudo é tão assustador”. Com 13 anos eu já estava com uma pequena coleção de caveiras e relativos e depois descobri a Festa dos Mortos do México numa revista e com o advento da internet, com o tempo pesquisei mais sobre o assunto e ainda continuo fascinada por eles. Não é questão de ser mórbida, mas de viver e tentar compreender mistérios que estão além de nosso conhecimento e principalmente a forma como as pessoas, no passar dos séculos encararam esse assunto.

    Não tenho o que comentar do post, está perfeito, claro, objetivo! É um de meus preferidos até agora!

    bjs!!

    • setembro 11, 2011 9:24 pm

      Também gosto muito desses temas relacionados à vida e morte e suas respectivas simbologias, como as caveiras. A Idade Média é rica nesse tipo de representação, não coube no post, mas umas das que eu mais gosto é “A morte e o Avarento” de Hieronymus Bosch. Eu acho interessante como as perdas, sejam elas o luto da perda de quem amamos, família, amigo ou animal de estimação…ou até outra coisa que perdemos podem marcar nossa vida tão profundamente e nos dar a exata sensação de fragilidade do ser humano diante daquilo que ele não escolhe: nascer ou morrer. E como a morte é imprevisível! Muito interessante sua história, Sana. E precoce. Já me criticaram bastante pelo meu interesse por esses assuntos, morbidez, pessimismo… não se trata disso como você disse. A vida e a morte são inerentes a qualquer ser humano, não importa de qual cultura ou qual renda possua, acho que isso é o mais fascinante. Concordo inteiramente com sua opinião de entender o que está além do nosso conhecimento e como o ser humano percebe esse assunto. Obrigada Sana, gosto muito dos seus comentários, são inteligentes e sempre adicionam mais ao assunto. Beijos!

      • Sana permalink
        setembro 19, 2011 5:55 pm

        Helena, posso te garantir que isso foi a única coisa precoce que aconteceu comigo: se interessar por esse tema específico. Mas claro, vale lembrar que eu não tinha internet e as informações eram adquiridas de forma muito lenta através de revistas ou jornais por anos. Se eu quisesse saber algo mais detalhado tinha de ir a biblioteca. Com a internet é mais fácil se informar, mas fontes boas mesmo, só surgiram de uns 5 anos pra cá, antes mesmo na internet não tinha muita informação.
        Bjs! ^^

  4. dezembro 12, 2012 11:55 am

    Olá Helena, belissimo post! Uma vez eu li em um livro de português, que era costume ter uma caveira de um amigo ou familiar que morrera, como “artigo de decoração”, acho que pelo mesmo tema abordado aki, só não lembro em que época, vc sabe algo á respeito?

    • abril 26, 2013 10:03 pm

      Obrigada! Desculpe a demora em responder, seu comentário estava como spam. Sim, já li que era costume usar caveiras e outros itens do falecido (como retratos do morto no caixão) como decoração, na verdade era como uma espécie de memorablia.

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