Skip to content

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, a Commedia Dell’arte e o medo da morte

agosto 18, 2013

“Nada é permanente, nem mesmo a morte”.

(Johnny Depp, uma das facetas de Anthony “Tony” Shepherd)

Quando Johnny Depp, um dos intérpretes de Tony Shepherd, papel que era de Heath Ledger pronuncia isso em determinado ponto do filme, é impossível não se arrepiar. Mas ao mesmo tempo, essa frase nos oferece um alívio para mais definitiva de todas as coisas que ocorrem com o ser humano, a morte. É apropriado falar isso, visto que Ledger morreu antes de terminar as gravações do filme.

OMundoImaginariodoDrParnassus

O Mundo Imaginário do Dr, Parnassus não é um filme com soluções fáceis, ele mexe fundo com várias questões psicológicas e filosóficas. E como se não bastasse somente isso, a gente vê o Heath Ledger, lembra da sua morte e parece que a atmosfera do filme que é cômica mas também extremamente melancólica acaba batendo fundo dentro do que a gente acredita em termos de vida e morte. O que há depois da morte e quais as consequências dos nossos atos? É uma questão bastante pessoal e delicada.

Parnassus no filme : – Porque todo mundo quer viver para sempre? A imortalidade é uma maldição sangrenta. Na Bíblia em Eclesistes 3:1 e 2 há a seguinte palavra de Deus: Tudo tem seu tempo determino e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou.

Parnassus8

Eu amo Heath Ledger, ele tem algo que faz eu me identificar com ele.  Sabe, eu sempre achei circo um saco, o ilusionismo possui histórias interessantes… mas eu não consigo viver o ilusionismo, porque nunca deixo me levar. Sei que é um truque.  Mas eu gosto muito da estética circense, da poeticidade do circo. Em um primeiro momento talvez seja isso que cative quem assiste Parnassus.  Depois você verá que é mais profundo e artístico, que além das referências como “Ringling Bros & Barnum e Bailey Circus”, temos aspectos teatrais bastante relevantes,  como a influência da Commedia Dell’arte que vamos falar posteriormente.  O Barnum e Bailey Circus, que mudou de nome diversas vezes foi fundado por Phineas Taylor Barnum um empresário do ramo do entretenimento, conhecido por trazer um espetáculo que misturava circo, zoológico, freaks e um pouco de fraude, como por exemplo a mulher que teria três pernas mas na verdade possuía era o braço com a mão tampada por um salto.  Phineas foi chamado de visionário, filantropo, charlatão, além de explorador da miséria humana.  Aí também está uma visão bastante pessoal em relação ao que acreditar.

Phineas e uma de suas performers, curiosamente ele parece estar saindo de um espaço em que deveria estar um espelho.

PhineasTBarnum

Fonte da fotografia:  Flickr   The World of Phineas T. Barnum por Matthew B. Brady
Publicação: Frederick Hill Meserve Collection, Time-Life Books  Data da publicação: 1977

No filme o espelho leva ao mundo imaginário do Dr. Parnassus

Parnassus5

Para quem não conhece a história de Parnassus, ela tem como referência a história tantas vezes contada como mito alemão e imortalizada através de Goethe em Fausto. Tal como Fausto, Dr. Parnassus (Christopher Plummer) é um homem muito sábio, um estudioso, porém acaba fazendo algo do qual se arrepende. Dr. Parnassus faz um acordo com o diabo, adquire  sua imortalidade  mas acaba pagando um preço caro por ela. Outra semelhança bem clara do enredo é que Dr. Parnassus é um estudioso, homem muito sábio. Fausto também era muito sábio, um favorito de Deus, alquimista e médico. Além disso é impossível não comparar a relação do enredo entre Valentina no filme de Terry Gilliam e Margarida no livro de Goethe. Elas cumprem uma função fundamental nas histórias narradas.

Dr. Parnassus aprende que um trato com o diabo não pode ser um bom negócio.

Parnassus

O diabo quer a alma de sua filha Valentina (Lily Cole) em troca da imortalidade de Parnassus, quando a mesma completar 16 anos. Parnassus aumentou seu poder e viveu durante os tempos, porém foi condenado a viver com medo que lhe retirassem a filha.  Parnassus possui poderes, mas vive em condição mambembe e bêbado, infeliz com o fato de um dia perder sua filha.  Ele convive com uma trupe circense/teatral, a filha Valentina, o anão Percy e o mágico Anton. Dr. Parnassus possui um espelho, sua porta de entrada para um mundo imaginário que vai depender de quem pela porta entrar, já que o mundo incorpora sua imaginação, seus medos e emoções. Como na cena em que uma senhora que confunde o anão Percy com uma criança. No mundo da senhora, uma frequentadora de shoppings, existem belos sapatos de salto altíssimo e feitos de cristal.

Parnassus2

Eis que um belo dia, um homem bonito, esperto e enrolão é salvo por Valentina e Anton.  Parnassus imediatamente acredita que ele é o diabo, por seu jeito sedutor e manipulador. Aí está  a função do uso de caracterização de zanni Pulcinella  da Commedia Dell’arte em Heath Ledger. Vemos que essa vestimenta é uma extensão da personalidade de Ledger no filme, percebemos isso através de seus trejeitos e sua fala no decorrer da história.  A Commedia Dell’arte é um gênero teatral que surgiu na Itália em meados do século XVI, como herança da Fábula Atelana. É um teatro de máscaras, as quais guardam elementos psicológicos dos personagens que fazem parte da encenação. As histórias eram elaboradas a partir das relações entre servos e patrões, posteriormente com a entrada de mulheres no grupo, as histórias passam a narrar também intrigas e enredos sobre o amor.  Da Commedia Dell’arte, o núcleo principal da narrativa herdou a organização dos personagens. Temos os zannis, os servos. Heath Ledger incorpora o zanni Pulcinella, com seu enorme nariz que parece de um pássaro e roupas brancas. Na Commedia Della’arte, Pulcinella é espirituoso, melancólico e  geralmente desfigurado (com a morte de Ledger foram convidados três novos atores para ser  diferentes facetas do próprio Ledger do outro lado do espelho, o mundo imaginário). O zanni Pulcinella, tal como Heath Ledger (Tony), é fingido, irreverente e caminha com passos pequenos e bruscos. Ele alarga seus braços e agita-os como asas como se quisesse encontrar equilíbrio e volatilidade.

Heath

Curiosamente, também a trupe circense formada por Valentina (Lily Cole) e Anton (Andrew Garfield) parecem formar o casal de possíveis enamorados, advindos da Commedia Dell’arte. Até que a ordem natural  é quebrada pela vinda de um intruso, possível enamorado de Valentina, o próprio Tony (Heath Ledger) que aqui exerce o papel duplo de servo (zanni) e enamorado. Na Comedia Dell’Arte os enamorados poderiam ser tanto ingênuos e pouco brilhantes quanto cultos e belos. Além disso, a enamorada na Commedia Dell’arte era cortejada por dois enamorados, um mais velho (Heath Ledger) e outro mais novo (Andrew Garfield). Os enamorados da Commedia Dell’arte não usavam máscaras, quase todas as cenas em que há insinuação de intriga amorosa no filme, Tony (Heath Ledger) está sem máscara.

Enamorados

Parnassus3

Outra curiosidade é que além de Heath Ledger incorporar atitudes de zanni Pulcinella, vemos que ele possui muito de Arlecchino. Esse zanni, incorpora elementos de esperteza e ingenuidade, está sempre no centro das intrigas. Inicialmente as roupas do Arlecchino eram brancas (como as de Heath no filme) e posteriormente mudou para remendos  coloridos (no teatro). Alguns teóricos dizem que o termo Arlecchino provém da palavra  Hellequim, o chefe dos diabos que comandava espectros e demônios.  Quando Tony (Heath) surge pela primeira vez, o pai de Valentina, Parnassus (Christopher Plummer) acredita que ele seja um enviado pelo diabo. O que posteriormente não se confirma. Tony ajudaria Parnassus a reaver a alma de Valentina.

ParnassusEspelho

Também na Commedia Dell’arte era comum a presença de dois velhos, Pantalone  e Dottore, que não correspondem com elementos psicológicos de Parnassus, mas no filme Chistopher Plummer é o mais velho dos personagens mantendo a estrutura do antigo teatro europeu.  Talvez Parnassus tenha uma leve semelhança com Pantalone pelo apetite pelo intelecto e postura fechada.

Dr Parnassus

A estrutura da Commedia Dell’arte também traz três zannis, Arlecchino, Pulcinella e Briguela. Apesar dos zannis não corresponderem com aspectos psicológicos do anão Percy (Verne Troyer) e de (Anton) Andrew Garfield, essa dupla faz o trio dos zannis junto à (Tony) Heath Ledger.

Parnassus1

AndrewGarfield

Mas a maior lição que esse filme proporciona é não temer suas escolhas erradas, porque nada é permanente nem mesmo a morte. Uma cena do filme que não tem nada a ver com a morte mas me fez lembrar do tema,  deveria ser também uma lição para o Dr. Parnassus em busca da imortalidade.  O que é também um alento para quem perde uma pessoa querida ou tem medo da própria morte. Em qualquer dessas alternativas, o melhor é não temer, ser puro de coração e fazer as melhores escolhas sempre. Heath Ledger diz nessa cena:

Não tenha tanto medo da mudança, companheiro.

HeathL

One Comment leave one →
  1. fevereiro 12, 2014 11:03 pm

    Helena, você é gênia, rs…

    Li Doutor Fausto do Thomas Mann, É um puta livro mas sofri com as descrições ultra-minuciosas. Não consegui dar conta de A Montanha Mágica, li dois terços e desisti. Achei Fausto de Goethe incrivelmente insuportável e pernóstico. Mas há um ensaio de Marshall Bermann sobre Fausto em Tudo o que é sólido desmancha no ar que é uma senhora análise sobre o tema.

    Não conhecia este filme, está a caminho pelas lojas Torrent. Vou assisti-lo hoje ou amanhã. Valeu a dica.

    Não sei por que Heather Ledger não me bateu. Acho que é por que tenho antipatia dos Batman de Nolan (e detesto Christian Bale com exceção de Trapaça)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Espaços Narrativos

memórias absorvidas por espaços, propagadas por pessoas

jimgoforthhorrorauthor

Horror author. Extreme metal fanatic. Husband. Father.

Não Sou Exposição

Questionamentos sobre imagem corporal, amor próprio, saúde e comida.

vamosparalondres

um autoguia para a minha viagem à capital britânica

A Virgem Boêmia

Entre palavras e cervejas

Dully Pepper24H

Arte pelo Amor, Arte pelo Mundo, Arte pela Paz!

REQUADRO

Just another WordPress.com site

Supernova de Estilos

Um espaço para arte, moda, música, textos e tudo o que for interessante e novo (ou vintage)!

blog da Revista Espaço Acadêmico

Revista Espaço Acadêmico, ISSN 1519-6186 – ANO XVI - Mensal. Conselho Editorial: Ana Patrícia Pires Nalesso, Angelo Priori, Antonio Mendes da Silva Filho, Antonio Ozaí da Silva, Eva Paulino Bueno, Henrique Rattner (in memoriam), João dos Santos Filho, Luiz Alberto Vianna Moniz Bandeira, Raymundo de Lima, Renato Nunes Bittencourt, Ricardo Albuquerque, Rosângela Rosa Praxedes e Walter Praxedes. Editor: Antonio Ozaí da Silva

palavrasecoisas.wordpress.com/

Comunicação, Subculturas. Redes Sociais. Música Digital. Sci-fi

Felinne Criações

Bastidores dos trabalhos, projetos, e vida Felinne ;)

Drunkwookieblog

Porque esperar pelo G.R.R Martin não dá

Lembrar ou Esquecer?

Depois de um tempo...

A CASA DE VIDRO.COM

Portal Cultural & Livraria Virtual. Plugando consciências no amplificador! Um projeto de Eduardo Carli de Moraes.

%d blogueiros gostam disto: