Skip to content

A lição de poesia de Gus Van Sant em Paranoid Park

outubro 15, 2013

Jared e Alex

“Ninguém nunca estará pronto para o Paranoid Park”

Jared (Jake Miller), amigo de Alex (Gabe Nevins)

Desde muito tempo Gus Van Sant é um dos meus diretores preferidos, senão o que mais me identifico. Advindo da arte (era pintor autodidata), traduz de maneira poética situações aparentemente simples do dia-a-dia mas que comportam uma infinidade de inquietações que pessoas “normais” não costumam perceber. Gus Van Sant foi influenciado pelo cinema experimental dos anos 60, especialmente o nova iorquino. Van Sant decidiu adaptar o romance Paranoid Park escrito por Blake Nelson, porque o escritor também foi criado em Portland como Gus. Além disso o próprio Gus era um skatista amador quando adolescente. Pesou também o fato de ser uma história interessante.

O personagem principal, Alex (Gabe Nevins).

Se fosse compará-lo à um pintor certamente seria Edward Hopper, seus ângulos desnudam o olhar das pessoas e as torna seres humanos verdadeiramente importantes em um mundo que não valoriza muito a individualidade das pessoas e as trata como mais uma bolacha do pacote. 

edward-hopper-automata-1923

Edward Hopper – Automat, 1927

Para perceber isso é só ver em Paranoid Park, a cena em que Gabe encontra duas de suas amigas no shopping. Os closes psicológicos nos rostos das meninas nos revela quem elas são, apesar de vê-las poucas vezes no filme.  Também na cena em que Gabe conversa com seu pai, que está em segundo plano e fora de foco. Tentamos vê-lo, percebemos suas tatuagens, aos poucos Van Sant nos apresenta a figura do pai. O pai aparece apenas uma vez, mas no pouco em que aparece, Van Sant dá uma importância especial à sua aparição. É como se todas as pessoas fossem únicas, independente de suas aparências ou da situação de coadjuvantes em que aparecem.

O ´diálogo entre Alex (Gabe Nevins) e seu pai ( Jay “Smay” Williamson)

Paranoid Park 2

Paranoid Park 3

Paranoid Park 4

Paranoid Park6

Paranoid Park 10

Paranoid Park12

Paranoid Park 11

A amiga de Macy (Lauren McKinney), Rachel (Emily Galash) aparece apenas uma vez no filme. Ela dá a entender que também conhece Alex, porque o cumprimenta pelo nome. Porém um close em seu rosto nos revela toda sua importância, apesar de ser coadjuvante no filme.

Rachel

Outro elemento interessante dos filmes de Van Sant é o fato de sua preferência por não-atores ou atores pouco conhecidos. O anonimato dessas pessoas faz com que a identificação seja imediata, pois aqui não temos estrelas mas pessoas da nossa rotina atuando. Em Paranoid Park vemos Taylor Momsen, que faz a namorada de Alex, quando ainda era uma adolescente pouco conhecida do público. Para recrutar não-atores, Van Sant criou uma página no MySpace em que deixou o casting aberto para homens e mulheres jovens que fossem punks, skaters, artistas, músicos, fotógrafos, atletas, crianças tímidas e mais uma infinidade de variantes. Gabe Nevins (o Alex) ouviu falar sobre o teste em uma loja de skate. O tio de Alex foi interpretado pelo diretor de fotografia do filme, Christopher Doyle. Gus Van Sant também gosta de adicionar realismo vindo de seu elenco.  No caso de Paranoid Park, a maioria dos atores gravaram com suas próprias roupas e improvisando com uma ou outra inserção de diálogo que eles mesmos criavam, para dar mais realismo às suas falas.

Gus Van Sant conversando com o elenco

Gus Van Sant

Van Sant também gosta muito de valorizar a comunidade underground local, como é o caso da escalação de Jay”Smay”Williamson, um pioneiro do skate de Portland, Oregon, que no filme faz o pai de Alex. No filme, Paranoid Park é o nome onde todos os skatistas se encontram, um lugar que já havia se tornado uma lenda por ser criado por skaters, punks, “caroneiros de trens”, bêbados… ditando suas próprias regras.

O skatista profissional Jay “Smay” Williamson (ao centro) é o pai de Alex no filme. Embora ele não demonstre ligação com o skate no filme (aparece apenas em uma cena, conversando com Alex sobre a separação judicial dele e da mãe de Alex).

Fotos de Earth Patrol Media

Jay

Jay Smay

Portland’s Burnside Skatepark, um dos locais de filmagem, foi construída clandestinamente por skatistas como o Paranoid Park ficcional. Fonte – Fotógrafo Kyle Burris de Portland, OR, Estados Unidos.

Portlandskate

Para Gus Van Sant a solidão também é importante, porque é nela que você conhece a si mesmo e é por isso que cada ser humano tem medo de ficar sozinho. Van Sant trabalha com temas que aprecio demais, como a morte, a inclusão de grupos marginalizados pela sociedade e a juventude.

Paranoid Park

07

Aliás, eu admiro a maneira como Gus Van Sant retrata a juventude em seus filmes, sempre valorizando sua inteligência e suas inseguranças. Afinal a juventude é o período feliz, mas também assustador. E é essa vertente que ele explora de maneira maravilhosa em seus filmes. Quando em Paranoid Park vemos o diálogo do jovem Alex (Gabe Nevins) com a sua amiga Macy (Lauren McKinney) , em que ele fala que há coisas mais importantes para pensar do que namoradas e separação dos pais. Macy pergunta o que por exemplo e Alex fala sobre as crianças que passam fome na África e das pessoas que morrem no Iraque. Macy então indaga:  –  Desde quando você se importa com isso?  Alex então diz: – Você sabe, são esses pequenos problemas, eles são estúpidos. E é aí que Macy retruca: – Não se isso está acontecendo com você. E é ela que vai “salvar” o garoto com uma ideia, apesar de ela (e nem ninguém)  saber o que ele fez.

O adolescente é catapultado para outra visão sobre as coisas quando sua ingenuidade é quebrada e ele percebe que é capaz de fazer algo terrível, mesmo que não queira. É a situação limite que é capaz de mudar toda nossa vida, de maneira irreversível. Vista por esse âmbito, realmente a vida é uma sucessão de eventos sem motivo, que achamos que são importantes até nos depararmos com o nosso lado desconhecido. Afinal do que Alex tem medo? De ser preso ou de todos descobrirem o que ele fez, por consequência o que ele é. Mais do que isso, Alex é apenas um garoto assustado que é levado à uma outra dimensão de seriedade sobre as coisas, quando o peso de ter cometido algo terrível cai sobre seus ombros.

Alex

Isso é muito bem colocado em seus flashs em que claramente, através do uso das câmeras, da música e também do silêncio, vemos seu arrependimento em ter ido ao Paranoid Park. Sentimos todo o peso de sua ação quando vemos o seu banho na casa do amigo Jared, em que uma cena poética com o canto dos passarinhos (os mesmos que estão ao fundo como decoração do azulejo), misturado ao barulho da água no chuveiro e ruídos caóticos, nos faz ter uma sensação de tensão, como se Alex pudesse dividir a culpa conosco e nós pudéssemos ter a exata dimensão do peso que ele carrega, do erro que cometeu.

Eu sinto que há algo fora da vida normal. Fora dos professores, rompimentos, namoradas. Algo lá fora, do lado de fora – Como diferentes níveis de … coisas.

Alex2

Alex descobre da pior forma possível que não há pior peso que o peso que impomos para nós mesmos.

Alex3

One Comment leave one →
  1. Sana permalink
    janeiro 27, 2014 12:25 am

    Uau! Me deu vontade de ver! Ainda mais por ser em Portland que é considerada a cidade mais alternativa dos EUA. Talvez por isso o diretor colocou skaters, punks, grunges… porque é parte da vida em Portland!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Espaços Narrativos

memórias absorvidas por espaços, propagadas por pessoas

jimgoforthhorrorauthor

Horror author. Extreme metal fanatic. Husband. Father.

Não Sou Exposição

Questionamentos sobre imagem corporal, amor próprio, saúde e comida.

vamosparalondres

um autoguia para a minha viagem à capital britânica

A Virgem Boêmia

Entre palavras e cervejas

Dully Pepper24H

Arte pelo Amor, Arte pelo Mundo, Arte pela Paz!

REQUADRO

Just another WordPress.com site

Supernova de Estilos

Um espaço para arte, moda, música, textos e tudo o que for interessante e novo (ou vintage)!

blog da Revista Espaço Acadêmico

Revista Espaço Acadêmico, ISSN 1519-6186 – ANO XVI - Mensal. Conselho Editorial: Ana Patrícia Pires Nalesso, Angelo Priori, Antonio Mendes da Silva Filho, Antonio Ozaí da Silva, Eva Paulino Bueno, Henrique Rattner (in memoriam), João dos Santos Filho, Luiz Alberto Vianna Moniz Bandeira, Raymundo de Lima, Renato Nunes Bittencourt, Ricardo Albuquerque, Rosângela Rosa Praxedes e Walter Praxedes. Editor: Antonio Ozaí da Silva

palavrasecoisas.wordpress.com/

Comunicação, Subculturas. Redes Sociais. Música Digital. Sci-fi

Felinne Criações

Bastidores dos trabalhos, projetos, e vida Felinne ;)

Drunkwookieblog

Porque esperar pelo G.R.R Martin não dá

Lembrar ou Esquecer?

Depois de um tempo...

A CASA DE VIDRO.COM

Portal Cultural & Livraria Virtual. Plugando consciências no amplificador! Um projeto de Eduardo Carli de Moraes.

%d blogueiros gostam disto: