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Distopia Redimensionada: A Influência Greco-Romana de Jogos Vorazes

novembro 26, 2013

Hoje os gêneros que fazem mais sucesso são as fantasias medievais, com referências à mitologia germânica e nórdica e a ficção científica, frequentemente focada na distopia. O primeiro gênero nos estimula o escapismo, o segundo nos traz à realidade. Vá ao cinema hoje e veja quais seus principais cartazes: Hobbit promove sua continuação em dezembro, a continuação de Thor está em cartaz, assim como o segundo filme da trilogia Jogos Vorazes (Em Chamas).  E é desse último que pretendo falar aqui. Jogos Vorazes é uma distopia com elementos steampunks/cyberpunks (minha opinião), misturando elementos vitorianos new wave, anos 40 e ainda, elementos greco-romanos. É muita coisa para minha cachola de uma vez só, muita riqueza de informação para assimilar! Portanto me perdoem fãs da trilogia, tanto dos livros quanto dos filmes, se eu me esquecer de alguma coisa ou acabar não abordando algo.

Katniss

Jogos Vorazes (The Hunger Games) foi escrito por Suzanne Collins que teve a ideia enquanto zapeava canais e viu em um canal um reality show e em outro cenas da guerra do Iraque.  A narrativa  acontece em um futuro não definido em que a América do Norte é destruída. Há uma cidade principal, Panem e doze distritos pobres definidos numericamente de 1 à 12. Havia um 13º distrito que foi eliminado nos chamados “dias escuros” por seus habitantes terem se rebelado. Para evitar novas revoltas e lembrar o poder da capital foram criados “Os Jogos da Fome” (Jogos Vorazes), uma competição que acontece todo ano sendo transmitida pela televisão para todos habitantes de Panem. Para os jogos, no chamado dia da “Colheita” são escolhidos dois jovens entre doze e dezoito anos de cada distrito. Esses jovens, chamados de tributos, precisam lutar um com os outros até a morte, sendo que só pode haver um sobrevivente entre todos.

Jogos Vorazes explora aspectos reais do exército romano em termos de combate como o termo arena,  que nos faz lembrar muito dos combates no coliseu ( o que fica mais evidenciado no “Em Chamas” quando os personagens combatem com animais e elementos naturais) e desfiles em bigas ao mesmo tempo que remonta figuras mitológicas gregas como Teseu, embora Diana (Ártemis em grego), tenha muito mais a ver como deusa personificada na figura heróica de Katniss Everdeen. Katniss possui muitas características de Diana em sua personalidade, é a caçadora arisca e selvagem, muito habilidosa no arco e flecha além de se locomover com facilidade na floresta. Além disso, Diana aparece como deusa indiferente ao amor (que é o que Katniss aparenta, embora não seja assim). Havia vários templos de culto à Diana, o sacerdote deveria ser um escravo fugitivo que matasse seu antecessor em combate.

O desfile nas bigas em Jogos Vorazes

HungerGames

Diana/Ártemis e Katniss: muitas semelhanças

Diana

KatnissEverdeen

Os gladiadores eram lutadores que participavam de torneios de luta em Roma na Antiguidade. Eles possuíam origem escrava e eram treinados para os combates que serviam como entretenimento para os habitantes de Roma e províncias. Os gladiadores usavam várias armas tal como em Jogos Vorazes, lanças, espadas, flechas, tridentes e outros. Os combates aconteciam na arena,  a mais famosa arena foi o coliseu. As lutas terminavam quando um deles morria. É impressionante como Jogos Vorazes se inspirou na política do “Pão e Circo” da sociedade romana, dar entretenimento à população para se esquecerem dos demais problemas sociais, mesmo que esse entretenimento seja a morte. Não é surpreendente pensar na atração do ser humano pela desgraça alheia, quando pensamos por exemplo que os famosos museus de cera nasceram da ideia das pessoas entrarem em necrotérios para saberem como alguém havia morrido e ver seu corpo post mortem, apenas como entretenimento.

Os habitantes de Panem segundo Katniss: “- Enquanto passamos fome no Distrito 12 eles vomitam para poder comer mais”.

HGames

Enfim, voltemos à ideia dos romanos, também os gladiadores recebiam patrocinadores, isso tornava os combates mais emocionantes e depois de sua vitória eram recebidos em toda sua glória como se fossem heróis, ganhavam inclusive uma pensão. É interessante lembrar que uma das maiores revoltas da Roma Antiga foi levada à cabo por um ex-escravo e gladiador chamado Espártaco, essa revolta chamada de “Terceira Guerra Servil” teve participação de mais de cem mil ex-escravos.

Os ganhadores dos Jogos vorazes possuem muita coisa em comum com os gladiadores

HungerGames2

Tal como Espártaco, Katniss também é forjada à liderança popular, quando quebra uma das regras principais dos jogos. Há uma inversão dos valores primordiais dos jogos, ao invés de ser entretenimento puro e simples se torna uma ameaça, visto que uma jovem de 16 anos pode quebrar as regras então o povo  também  pode.  E nessa lógica o “Pão e Circo” perde sua função. Mas cuidado Katniss, como Orwell profetizou em 1984, o grande irmão também te observa. 

Presidente Snow para Katniss:  – Convença-me !

PresidentSnow

Quando você estiver na arena, lembre-se de quem é seu verdadeiro inimigo, como diz Haymitch Abernathy.

HungerGames1

HungerGames2

catching-fire

Katniss Everdeen é uma espécie de messias, um símbolo de luta do povo. Como em todas as revoluções, levadas à cabo por pessoas do povo e pensadas por intelectuais, vemos que Karl Marx nunca esteve tão certo em afirmar que os homens fazem sua própria história, mas não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. Peeta Mellark e principalmente Katniss são jogados como papéis ao vento pelo destino, parece que quanto mais o Estado se dá conta de que tem um problema identificado na figura de Katniss, mas ele se enrola ao perceber que o povo ganha mais força na figura da humilde porém corajosa heroína. E nisso ela realmente tem a ver com a figura do herói Teseu. O significado de Teseu é  homem forte por excelência, o que poderia ser aplicado à Katniss sem problemas. Afinal ela se entrega como tributo no lugar de sua irmã Prim, sofre com a perda de pessoas que ama mas ainda assim sua força nunca esmorece. Peeta Mellark é o rapaz de coração puro e muitas força.  Ainda que Katniss não perceba inicialmente, tem muito mais em comum com ela do que ela pensa.

Peeta:  “- Quero mostrar que eles não são meus donos, e se for pra mim ter que morrer, quero morrer do meu jeito.”

Peeta

Outro elemento interessante em Hunger Games é o tordo, descrito no livro como um cruzamento entre rouxinol e um pássaro espião geneticamente modificado chamado gaio tagarela. Katniss se refere aos pássaros como engraçados, uma espécie de tapa na cara do Capitólio. O animal foi criado pelo Estado para vigilância, uma espécie de gravador biológico, escutavam conversas e depois retornavam. Após as pessoas perceberam o que acontecia, que os animais eram espiões, eles foram abandonados pelo Estado para morrer de fome na floresta.  Porém os animais, cruzaram com rouxinóis e tornaram-se mais fortes resultando em um canto parecido com o dos humanos.  O simbolismo disso é evidente, as criações do governo que acabam resultando em fracasso são símbolos de que o governo totalitário também pode falhar ao exercer domínio. Nesse ponto o tordo é semelhante à Katniss não por acaso ele é seu símbolo, tanto na questão da sobrevivência na selva quanto pelo fato de ser indesejável para o Estado.  Isso fica evidente quando Rue morre, imediatamente o canto do tordo vira também um símbolo de luta, já que é através da comunicação do tordo que Katniss e Rue se comunicam. O Distrito 11 se revolta, visto o que aconteceu com Rue.

Além disso, o vestido de Katniss idealizado por Cinna, tem o simbolismo da chama que ao final é finalizado em um tordo em “Jogos Vorazes – Em Chamas”. Imediatamente a ousadia da criação é percebida pelo presidente, Cinna é severamente punido.

 “- Além disso, não é da minha natureza cair sem lutar, mesmo quando as coisas parecem insuperáveis.”

É muito recomendável acompanhar a trilogia através dos livros e dos filmes, há muito tempo não havia uma ficção científica tão inteligente focada no público jovem.

7 Comentários leave one →
  1. novembro 27, 2013 3:47 pm

    Sem dúvidas o melhor post sobre Jogos Vorazes que já vi! Sou muito fã dos livros, são ótimos, não achei na altura dos filmes, mas depois do seu post repensei isso, pois os elementos que você citou são bem retratados nos dois filmes. Muito interessante as correlações que você fez, ainda não tinha visto por esse ponto de vista até por falta de conhecimento mesmo, agora está tudo mais interessante.

  2. novembro 30, 2013 6:18 am

    Ola, gostei muito da sua postagem, eu li os 3 livros, assisti os 2 filmes e tambem fiz postagens sobre THG, se quiser dar uma olhada e depois comentar, adoraria falar sobre o assunto e outros.

    http://detudoaospoucos.blogspot.com.br/2013/11/resenha-trilogia-jogos-vorazes-hunger.html

    • dezembro 2, 2013 9:10 pm

      Simonne, amo Jogos Vorazes. Minha irmã me apresentou, eu não levei muito à sério a trama (aquele hábito de julgar sem conhecer) e depois que tive acesso viciei. Gosto dos livros e também dos filmes. Já visitei seu blog, vou seguir.🙂 E sim será um prazer conversar com você.

  3. janeiro 12, 2014 1:55 am

    MUUUUUIIIIITO boa sua análise!! Eu ainda não li os livros mas quero ler😉
    Me orgulho destas mulheres que escrevem grandes livros com grandes personagens mulheres! Especialmente ficção, sempre uma área tão masculina.
    Aprecio a estética alternativa dos personagens e penso “poxa se no futuro ter um visual com elementos alternativos vai ser tão aceito assim, eu quero o futuro agora!” hahaha!!

  4. fevereiro 12, 2014 10:43 pm

    Quando vi o trailer tive a mesma sensação do trailer de 47 ronins. Achei uma insuportável bobagem para adolescentes. Não sei se foi porque fiz mestrado em História Antiga e Medieval, ou devido à banalização da cultura e do cinema, tenho uma certa antipatia pelo uso da História como “cenário”. Mesmo O senhor dos Anéis (li os livros e tenho os dvds) não me enchem os olhos. Game of Thrones eu ganhei de presente e não quis ver. No século XIX o fastio burguês levou as pessoas a romantizarem a Idade Média, acho que um pouco disto se repete. Sem falar que filmes muito barulhentos me torram a paciência. Também não gostei de 300 de Esparta, apesar da fidelidade ao traço de Frank Miller. Por outro lado, adoro Troia.

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