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Metalhead (Málmhaus): Superação da dor e descoberta da identidade através do Metal

agosto 9, 2014

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Não há dor mais profunda que aquela de perder quem amamos. Em 2012  eu perdi minha avó em janeiro, uma semana após meu aniversário, fazia tempo que não a via. Não fui ao seu último aniversário, porque achava que iria no próximo ano. Ela tinha 97 anos, adoeceu com uma pneumonia e morreu após pouco tempo. Em abril do mesmo ano,  perdi meu irmão que eu não via desde que eu era criança. Ele precisava de um transplante de coração, conseguiu, teve uma operação bem sucedida para após um mês morrer em decorrência de uma infecção em um ponto da costura da operação. Morreu extremamente jovem. Foi a primeira vez que eu fui à Niterói, onde ele morava. Para chorar durante seu enterro e finalmente vê-lo.  Minha paz vem da plena certeza de que era a hora de ambos, eles estão em melhor lugar agora. Ambos estavam em paz com Deus e suas vidas, visto pelas suas conversas que de certa maneira já sabiam qual seria seu destino. Mas fiquei deprimida durante algum tempo, pensando que poderia ter sido mais presente (ainda que os dois não gostassem muito disso) . Quando alguém próximo morre, temos a sensação de que não temos nenhum controle sobre o destino (e realmente não temos).

Metalhead (Málmhaus em islandês), filme maravilhoso dirigido por Ragnar Bragason, nos traz a história da adolescente Hera, uma garota que interessou-se por heavy metal após a morte de seu irmão, também fã do metal. Hera busca no metal uma forma de superação da morte do irmão,  através da música e criação de sua própria identidade. Hera mora em um lugar isolado da Islândia, um povoado rural em que sua família tem a típica rotina de trabalho na fazenda, cuidando dos animais e lavoura. Além disso frequentam a Igreja do povoado. Após a morte do irmão em um acidente com a roda de um equipamento agrícola em que seu longo cabelo fica grudado na roda enquanto ele cuidava da lavoura, Hera (ainda uma pré-adolescente) vai ao velório dele na Igreja e começa a nutrir um certo ódio por Jesus Cristo ter deixado seu irmão morrer. Vemos o impacto disso quando ela sai correndo da Igreja durante o velório de seu irmão. Posteriormente ela se despede definitivamente da infância, queimando sua roupas e as trocando por camisetas de bandas, jaquetas de couro e coturnos, provavelmente obtendo muitas do armário de seu falecido irmão. Ela também começa a conhecer todas as bandas, tocar guitarra e cantar. Segundo a própria, o Led Zeppelin começou tudo isso, citando referências como Iron Maiden e Master of Puppets do Metallica tanto dos posters de seu irmão (que acabarão sendo dela) quanto em suas camisetas.

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A queima das suas antigas roupas é o fim da infância de Hera e descoberta da sua identidade através da dor da perda do irmão.

 

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Hera toca guitarra para seu irmão onde ele foi enterrado: uma perda irreparável

 

Hera

 

E lidar com a perda do irmão e a descoberta de sua identidade não é algo fácil na adolescência de Hera. Seus amigos de infância ainda gostam dela, apesar de ela não ter mais nada em comum com eles (porque suas preferências são outras e bem diferentes da comunidade em que vive). A comunidade religiosa também tem medo de seu modo agressivo e estranho. Também há um abismo entre ela e seus pais, que não conseguem entender sua agressividade e a distância que a separa cada vez mais de sua família devido à seu gosto pelo metal, além do seu jeito truculento e revoltado. Também a mãe e o pai tem que lidar com o sofrimento e a distância do casal, desde a morte do primogênito.

 

Hera entre sua mãe e seu pai : uma simbologia que cita a “Santa Ceia” de Leonardo da Vinci. Enquanto seus pais são participantes ativos da comunidade religiosa, Hera se identifica cada vez menos com a religiosidade.

 

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Durante todos esses acontecimentos, ela conhece o Black Metal (Venom) através da televisão ( a polêmica queima de Igrejas Cristãs). Ela aparece no dia seguinte com o rosto pintado com uma corpse paint e seus pais não entendem nada.

 

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Um dos pontos marcantes é quando ela conhece o novo pastor da Igreja, ainda um fã e antigo admirador do estilo metal de se vestir. Ele possui uma tattoo do Eddie (Iron Maiden) no braço. Eis aí onde Hera menos procura surgirá uma amizade e identificação, que acabará tomando um rumo dramático por parte de Hera. O filme é inspirador e muito bonito, pois trata de eliminação de preconceitos em torno da aparência e gostos pessoais, a ligação afetiva com a família, a superação da dor, a redenção de princípios religiosos e a consequente paz interior e a sinceridade em relação  à própria identidade.

Outro ponto marcante no filme é a fotografia, simplesmente magistral. Cenários naturais espetaculares, que conversam com o clima existencialista, sério e muitas vezes divertido do filme. Preste atenção na poesia e sensibilidade dessa foto aí em cima, com o gado ao fundo (porque esse gado tem uma função simbólica muito importante no filme, principalmente quando chegamos na cena da gravação da música – quem ver saberá).

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Hera: ser uma pessoa melhor não significa abandonar o metal

 

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5 Comentários leave one →
  1. agosto 12, 2014 8:34 pm

    Realmente é difícil lidar com perdas,em 2010 perdi uma grande amiga…íamos ao show do Rammstein juntas,toda vez que eu ia em algum cover na região e não encontrava ela batendo cabelo na frente do palco,eu ficava brava,não aceitava.Mas lembrei da última vez que a vi,do último abraço que ela me deu e percebi que parecia que ela sabia o que viria a acontecer,pois foi o único dia que não a vi sorrir.Leio muito sobre espiritismo,por conta das minhas crenças,mas isso é assunto para outra oportunidade!
    Eu curti muito a descrição que tu deu sobre o filme,fiquei curiosa para assistir!É interessante quando nos fundimos com alguém querido,ainda após a ausência (e no caso a morte torna a ausência física eterna), e por conta disso descobrimos quem somos de fato, e acordamos para uma outra realidade ou desabrochamos de vez!

    See ya!

  2. agosto 16, 2014 8:49 pm

    Uma coisa que me deixa muito feliz atualmente é que coisas alternativas, principalmente góticas e referentes ao metal, estão cada vez mais bem produzidas. Eu baixei esse filme há um tempo atrás por sujestão de outra pessoa, mas lendo essa resenha e vendo os screenshots, deu bem mais vontade de assistir. Parece mesmo ser magestral cinematograficamente, além da identificação óbvia com a narrativa.

  3. setembro 1, 2014 8:13 pm

    Hoje mesmo vi sobre esse filme e fiquei afim de assistir, depois de ler sua resenha, mais ainda. Pelas imagens que você colocou, dá para perceber que a fotografia do filme é muito bonita mesmo. Beijos!

  4. dezembro 1, 2014 2:08 am

    Conheci seu blog hoje, e já gostei da dica de filme, inclusive, já estou baixando pra assistir! Parabéns pelo seu trabalho! ^^

    • 4sphyxi4 •
    universoasfixia.blogspot.com.br

  5. fevereiro 4, 2015 8:52 pm

    Excelente resenha! Parou de produzir o blog pq? Abraço!

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