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As mulheres e o rock

dezembro 13, 2015

Courtney

“Eu sou Miss Mundo, alguém me mate/ Me mate, pílulas, ninguém se importa, meus amigos…?/Eu sou Miss Mundo, me assista quebrar e me assista queimar/ ninguém está ouvindo meus amigos/ eu faço minha cama onde deitarei/ eu faço minha cama onde morrerei”. (Miss World – Hole)

A capa do álbum “Live through this”: Uma miss, aparentemente linda e emocionalmente instável.

Hole

Desde 2013 um amigo paulista que conheço há muito tempo havia me colocado em um grupo de mulheres bonitas do metal, grupo muito famoso que não postarei o nome aqui, mas quem participa ativamente do facebook deve saber. Eu nunca me achei bonita, por isso acho legal quando acham e às vezes até entro na onda, embora acreditar seja outra coisa. Conheci muita gente legal no grupo e outras pessoas nem tanto. Cheguei a ter fotos na página oficial (e ainda tenho). Mas algo começou a me incomodar no grupo esse ano, a falta de aceitação e respeito que gerava um bullying imenso, de caras (que não eram nenhum padrão de beleza) e garotas (que se achavam perfeitas). Certo dia vi uma garota sendo hostilizada por ter postado a foto de uma modelo gordinha, ela começou a ser ofendida sendo chamada de gorda, feia e eu que a defendi também comecei a ouvir. Teve uma moça que disse que era melhor que eu, mais bonita porque era mais alta e mais magra (eu tenho 1,70 e 67 kg) e além disso era loira natural. Poucos foram os interessados em nos defender e ao invés de os bullers serem expulsos da página quem foi expulsa fui eu e todos que defenderam essa menina – dois envolvidos diretamente na confusão e mais dez indiretamente (que então virou minha amiga no facebook). Vivemos uma época difícil para os sonhadores, como diria o filme Amélie Poulain. Por um lado minha época nesse grupo foi boa porque abriu algumas portas, inclusive com trabalhos de fotografia e como modelo. Mesmo eu não estando em meu melhor momento tanto esteticamente quanto psicologicamente. Por outro foi traumatizante, porque descobri que mesmo no meio do metal, do rock ainda existem pessoas que se imaginam superiores às outras. E o meu choque foi ver esse índice maior de pretensa superioridade no meio alternativo. É como se você tivesse que seguir todos os padrões estereotipados de beleza para ser aceita, ser bonita, ter o corpo perfeito, ser meiga, ter atitude, ser legal, ter piercings, cabelo colorido, tattoos, um estilo legal…são tantas exigências de como deveríamos ser que isso me cansa, porque anteriormente você era o que era, hoje você deve ser uma boneca plastificada.  Antigamente bastava você gostar de rock e ser você mesmo. Antigamente você fugia dos padrões para ser você e hoje você cai dentro deles querendo ser você. Você tem que ser hiperreal, perfeita. Só que alternativa.

Uma mulher alternativa, pronta para o consumo.

barbie-tattoo-design-

Voltando à garota que foi ofendida, é uma menina, ainda estudante, uma adolescente sendo ofendida por adultos. Isso me faz lembrar do caso de uma mãe que me pediu ajuda ano passado na escola porque a filha dela, uma garota linda, inteligente e fã de rock, estava se cortando e ela não sabia se era influência da Demi Lovato, de uma amiga ou se ela realmente era bipolar. Ela falou que as meninas me admiravam muito, porque gostavam de mim e do meu estilo. Que eu poderia ajudar, realmente ajudei no decorrer do ano.  Eu nunca fui um exemplo para ninguém, lembro que toquei no assunto em sala e a menina me perguntou se eu já tinha feito algo de mal para mim mesma, eu eu logo soube porquê. Lembrei então de quando eu tive um início de anorexia aos 17 anos, eu fiquei muito magra, 57 kg e simplesmente não sentia fome e parece que quanto mais magra eu ficava mais me elogiavam e me achavam bonita. E até hoje eu tenho um reflexo disso, quando engordo me acho feia e isso mexe com o resto da minha vida, confesso. Hoje faço musculação, corrida, mas sei que nunca serei magra. Naquela época eu ouvia Silverchair e me identificava completamente com o Daniel Johns, porque ele passava pelo mesmo que eu de uma maneira muito pior. O que estou querendo dizer é, que devemos nos responsabilizar pelo que fazemos direta ou indiretamente com adolescentes na internet, que já é uma época bem influenciável e repleta de insegurança. Onde estavam os adultos quando aquela garota precisou de ajuda em tal grupo na net?!  Enfim é muito mais fácil fingir que nada acontece. E ver a multidão de tumblrs criadas por garotas que não se aceitam e buscam soluções como anorexia, bulimia, automutilação…e acabam frustradas, porque não dá para ser tudo que a sociedade exige.

Boa era a época que se você se sentia diferente bastava gostar de rock, desenhar e ter um estilo fora do comum.

 

Quando eu me formei em Artes eu não parava de ouvir Distillers e Brody Dalle era meu exemplo, era mulher, bonita, tatuada, sexy, cantava e tocava em uma banda punk. Em uma época que nada disso tinha sido popularizado e nem tem tanto tempo assim. Hoje tem as Suicide Girls que foram popularizadas mas já existem há um bom tempo,  que para o bem fez com que aceitassem mulheres com gostos e aparência diferente, mas também tornou tudo comercial e plástico. Porque há uma imagem vendida da mulher linda, tatuada e sexy. Nesse ponto acho que os anos 90 fizeram mais pelas mulheres, Theo Kogan do Lunachicks já era tatuada nessa época e era realmente uma mulher do universo alternativo. Assim como as meninas do L7. Todas as mulheres dos anos 80 aos 90 fizeram mais por nós com seu engajamento político, música, bandas e estilo que toda uma geração de modelos alternativas dos anos 2000. 

 

brody_dalle_1

Hoje as moças migram da exibição na internet, sem nenhuma ligação com o rock, fazem várias tattoos, pintam o cabelo de cores diferentes, vão parar no meio supostamente alternativo mas não experienciam aquilo tudo: as bandas, os shows, as artes, a política (presente no discurso punk e metal), o universo alternativo como um todo… Na net teve um esforço válido em valorizar as mulheres do universo do rock, através de grupos mas ainda há uma divisão muito clara no rock, ou você é uma mulher consumível esteticamente ou você não é uma mulher respeitada.  Ou seja você só é valorizada pela música se for linda e se você for linda e se vestir de maneira um pouco mais liberal você é uma puta. São várias comparações no facebook de mulheres do rock que são comparadas com funkeiras, apelam dizendo que não precisam mostrar o corpo porque tem talento e esquecem que muitas vocalistas, guitarristas, bateristas que praticamente inventaram o rock feminino mostram o corpo, tal como Lita Ford, Doro Pesch e Great Kat para ficar em três. Os mesmos metaleiros que visitam páginas como a que eu fazia parte, que expõem beleza feminina no rock criticam as mulheres por se vestirem de maneira sexy, as desabonam pelo número de likes e comentários masculinos que recebem em fotos, como se isso as transformasse em mulheres “fáceis” e desabonasse o seu caráter. O pior são as mulheres que fazem o mesmo, identificando qual mulher é vulgar ou não e apontando com quantos homens ela já esteve usando como critério apenas a roupa ou um comportamento mais liberal. Os caras adoram as tatuadas do SG mas tratam as garotas alternativas que ficam como prostitutas apenas por terem um estilo diferente. Então é preciso coerência dentro do universo alternativo, porque as pessoas andam perdidas sociologicamente, filosoficamente e isso se reflete em seu caráter e na maneira que se comportam em sociedade. Já digo que o post é polêmico, sim parece contraditório mas não é. Quem acompanha meu blog sabe disso.

 

 

 

5 Comentários leave one →
  1. dezembro 15, 2015 7:32 pm

    Parabéns pelo post (e pelo blog como um todo). É extremamente inspirador pra mim!
    Bem, sobre o post, acho que compreendi bem o que você diz, mas posso ampliar mais o debate? Senti um pouco dessa decepção na faculdade de artes também! A gente foge de um “mundo” ditatorial e acha que entre pessoas com estilos e ideias alternativas será diferente, mas aí encontramos pessoas de plástico e percebemos que a diferença é só o uniforme.

    • dezembro 16, 2015 7:04 pm

      Obrigada Caline, fico feliz que seja inspirador para você. E claro que sim, pode ampliar o debate sempre que desejar. Sim, as pessoas possuem um estilo diferente mas suas ideias permanecem as mesmas, encontramos futilidade, intolerância, narcisismo,hedonismo …São os mesmos padrões revestidos de alternativos.

  2. dezembro 30, 2015 12:36 am

    Poxa, eu ultimamente tô até me afastando da comunidade alternativa, justamente pela pressão de perfeição que existe atualmente. As pessoas tem que estar sempre perfeitas, com cabelo perfeito, maquiagem perfeita… cadê a quebra de padrões nesta joça? Eu estou cansada desta exibição exacerbada disfarçada de atitude. Falou tudo quando disse em relação ao Suicide Girls. Não há uma negra, uma gorda, uma asiática se quer… enfim não há nenhuma “quebra de padrão”. Na verdade só vejo barbies tatuadas e, bem sinceramente acho que tatuagem não te faz alternativo. Se for assim aquela tia que tem um golfinho nas costas é alt, né não?

    O conceito de alternativo não deve estar ligado apenas a aparência, mas ao modo aberto de pensar e de agir. Eu repudio todo tipo de intolerância, me afastei bastante do metal por causa disso. Penso assim, se não me agrada, não faço questão de persistir. Quero estar próximo àqueles que me fazem bem, não esse bando de otários que acham que podem falar o que quiser de uma mulher. É repugnante, desculpa a raiva escrita kkkk

    Ótimo texto, como sempre é claro!
    Beijos!

    madessy.blogspot.com.br

    • janeiro 17, 2016 4:55 pm

      Ah, Madessy aqui a decepção tem sido constante também. Suicide Girls é o site com garotas mais “montadas” que existe, não digo que não são bonitas mas são iguais, muito iguais umas às outras. Fazem tattoos a cada set, nem sei se é porque gostam ou se é para ganhar mais audiência. Muito photoshop também…para que? Nisso o Burning Angel sai na frente a gente vê a diferença nas garotas. Todo corpo e rosto perfeito tem pelo menos uma dobrinha, uma pintinha…algo real. Nada mais é que uma Playboy com mulheres “alternativas” que muitas vezes nem participam do universo alternativo.

      Há lagumas SG que curto, mas nem por isso vou deixar de criticar. Deveria ter mais abertura, que a garota não mostrasse apenas beleza mas o que sabe de fato fazer, tem uma banda, escreve, desenha…coisas assim próprias de quem é realmente alternativo… Não investiu nisso só pela moda, pelo fetish de ser apenas uma garota tatuada. Conheço uma ex SG que largou o site, fez Filosofia, é tatuadora, faz muay thai… As reais não tem muita paciência para isso, pouco dinheiro e muita futilidade. Só sobra o glamour. Que nem acho tão glamour assim.

      Aí se critico é recalque, não é. Eu curto várias SGs, mas realmente cadê a variedade das etnias. E cadê a realidade? É um mundo alternativo de sonho, ninguém é assim 100% do dia.

      Esteja à vontade para falar o que quiser em meu blog, admiro sua atitude e estilo. E realmente a maioria dos metaleiros são extremamente preconceituosos, de tratar a mulher como objeto e ser incapaz de dialogar e pensar. E as mulheres também são assim, de rotular e perseguir. Já passei por isso e ainda passo. Por pensar diferente e não concordar com tudo.

      Obrigada! Vou linkar seu blog. Beijos!

  3. fevereiro 4, 2016 5:33 pm

    Poxa, super concordo com você!
    Hoje em dia tá tudo muito superficial. Tanto que ter tatuagem, piercing, cabelo colorido nem significa ser alternativo mais. Virou moda, tá “cool”. Antigamente era pra quebrar os padrões e chocar mesmo, hoje é porque é legal e todo mundo tem.
    Sobre as SGs, não sei se tô errada, mas quando surgiu o site tinha meninas mais variadas, de diversos padrões, mas hoje em dia a gente só vê meninas super parecidas. Até mesmo em atitudes.
    Pra mim, ser alternativo nunca estava relacionado só a aparência. Do que adianta ser todo diferentão/diferentona, se vai lá e critica a amiguinha que tá acima do peso considerado ideal. Se vai lá e faz piadinha com o outro só porque ele é diferente de você. Tem gente de aparência “normal” por aí que é muito mais alternativo do que certos “alternativos” que tão só na aparência pra ganhar status.
    Sobre o que aconteceu nesse grupo aí eu só queria dizer que fico muito triste por esse tipo de coisa ainda acontecer. Lamentável que ainda exista gente que se ache superior só porque está dentro de algum padrão de beleza imposto por uma sociedade hipócrita e machista. Pior ainda saber que essas pessoas se dizem alternativas. Com esse pensamento de massa, acho que tá no lugar errado, hein!?
    Adorei o texto! Vou até compartilhar aqui!
    Muito bom! Parabéns!
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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