Lisbeth Salander sabe o que faz
Os rapazes que frequentam meu blog me perdoem, mas se há uma convicção que alcancei até hoje na vivência entre homens e mulheres, é que é muito mais fácil ser homem que ser mulher. Como diria Madonna, se uma menina resolve se vestir como homem, tudo bem, mas se um menino resolve se vestir como mulher é degradante. Porque ser mulher é degradante! No caso de Lisbeth Salander, se ela se vestir como um rapaz, não está tudo bem não. Porque Lisbeth é uma mulher resolvida, embora um”pouco” problemática para a sociedade que não entende muito seu estilo e muito menos suas atitudes.
Eu assisti a versão de David Fincher (que aliás é um dos meus diretores preferidos) de “Os homens que não amavam as mulheres” e fiquei bastante decepcionada com sua versão “estou me vendendo para o oscar”. Tomei conhecimento da série Millenium de Stieg Larsson em uma revista e não havia me interessado em ler ou assistir o filme até saber mais através do Culture Freake, blog da Deze. Fiquei fascinada por Lisbeth Salander e achei o filme sueco de Niels Arden Oplev muito superior à versão de David Fincher. Não deu para entender porque ele fez essa versão para o livro, se já havia outra muito recente. A atriz Noomi Rapace possui uma interpretação mais convincente que Rooney Mara, que parece saída de um desfile de moda (o estilo alternativo e comportamento dela passaram batidos, falta atitude na atriz). Já Daniel Craig não faz feio na sua versão de Mikael Blomkvist. O sueco Michael Nyqvist também convence no mesmo papel. Para quem ainda não viu o filme, dê preferência ao de Niels Arden Oplev que é bem melhor, não vou contar sobre o que ocorre no filme em relação às mulheres (para não estragar a surpresa de quem ainda não viu), mas o título é bem explícito quanto seu conteúdo. Achei que o filme traz uma boa reflexão sobre a velha e recorrente causa da luta em prol do respeito às mulheres. E o melhor, só quem é esperto perceberá em curso esse tema, mas bem diferente das chatices que estamos acostumados. A história de Lisbeth coaduna muito bem com toda a história contada na narrativa. Uma das cenas que mais senti falta no de David Fincher, foi a cena do metrô em que Lisbeth sofre uma agressão por um grupo de rapazes. No filme de Fincher é a agressão vira um roubo, mas no filme sueco está claro o preconceito dos rapazes em relação às suas roupas. Lisbeth para mim é uma heroína feminista punk, isso sem saber que é feminista.
Lisbeth: Atitudes drásticas em um mundo dominado pelos homens.
Afinal qual mulher jamais se sentiu assim? Ridicularizada por ter um gosto diferente da maioria, assediada por usar algo mais sensual? Pouco importa, se você é mulher vão reparar em você de uma maneira ou outra, para o bem ou para o mal.
E se por um acaso você fizer essa pergunta em um momento de desespero:
Veja “Pequena Miss Sunshine” e lembre-se da Olive.
Todas as facetas do Punk
Os visuais punks são dos mais ricos, devido à várias subdivisões. Hoje em dia punk pode ser tanto usar roupa básica e ser cheio de tattoos (como o pessoal do hardcore) quanto ser um streetpunk ou ter um visual skinhead.
Roger Miret do Agnostic Front: “Nunca acredite em uma criança hardcore que não tenha escutado punk rock”, em uma clara influência do punk no hardcore, seja no som ou nas roupas (básicas mas com o corpo tomado por tattoos).
Streetpunk e seu moicano colorido: uma característica do visual punk é a agressividade no visual.
Para os que tem dúvidas, aconselho ver um filme chamado “Suburbia” (1984) de Penelope Spheeris, boa parte dos estilos que falo estão lá, desde o pós-punk até o skinhead, passando pelos batons vermelhos e cabelos curtos desconectados que divas punks como Brody Dalle popularizaram. Voltando ao filme Suburbia, ele trata os punks como jovens deslocados na sociedade, com traumas e problemas domésticos. Esses jovens encaram sua escolha em ser punk como uma saída para seus problemas em casa. É em uma espécie de gangue, TR – The Rejects, Os Rejeitados (obviamente pela sociedade e família), que eles encontram pessoas que realmente os acolham em suas características singulares. Os jovens que inicialmente possuem atitudes agressivas e chocantes revelam-se verdadeiras crianças quando são colocados em situações difíceis. No TR, um serve como apoio ao outro e válvula de escape.
Suburbia: Punks de cabelos descoloridos ou muito pretos, jaqueta de couro, jeans rasgados, bondage trousers e coturno, influência skinhead do chapéu e bengala (ou taco no caso dos hooligans) visto em “Laranja Mecânica” (veja o post “A Real História dos Skinheads”), parkas dos mods, suspensório, careca e coturno típico dos skinheads. E até o pós-punk que já começava a dar as caras. Todos esses estilos, com a atitude “Do it yourself”, “Faça você mesmo”. Não tinha essa de comprar nada não…
Há também no filme a influência original dos punks de negarem as drogas, um princípio do que o Minor Threat (que é uma banda punk/hardcore) faria como precursores do início do Straight Edge. Entre os motivos de alguns punks serem contra as drogas é que elas lembravam o mundo lisérgico dos hippies. Por isso também os punks cortam seus cabelos, cabelos compridos lembram hippies, que era tudo que eles negavam, uma geração que não deu certo.
A banda Minor Threat fundiu atitudes e peças do estilo punk, como a cabeça raspada, o coturno e o jeans rasgado à outras esportivas, como o tênis Vans (precursor dos skatistas), meia, munhequeiras e agasalhos esportivos. Embora muitos se esqueçam, o hardcore inicial foi muito influenciado pelos hooligans, que começavam a assistir jogos de futebol com roupas esportivas para não serem identificados como skinheads, que causavam confusão por onde passavam. Aí começa a ascenção da marca Lonsdale (a principal marca de agasalho dos hooligans/skinheads na Inglaterra ainda hoje).
A banda Minor Threat
O personagem skinhead/punk que é contra o ato de um dos integrantes do TR usar drogas e acaba batendo nele por isso. Aliás a agressividade é uma das marcas deste, um dos mais marcantes de Suburbia.
Outra cena marcante do filme é de quando esse mesmo jovem skinhead começa uma confusão em que as roupas de uma moça são arrancadas no meio de um show punk, logo após dele assediá-la. O vocalista da banda punk que está se apresentando (em um ato e revolta contra os jovens agressivos), fala para eles deixarem a moça em paz e curtirem o show numa boa. O que acaba não acontecendo e o show acaba. É por causa dessas atitudes que infelizmente não acontecem somente na ficção, que a sociedade acaba rotulando o punk de agressivo. Por causa de alguns indivíduos com uma postura agressiva todo o movimento fica marcado como agressivo. Eu penso que as pessoas são preconceituosas, não somente com o punk mas com outros gêneros do rock. A sociedade tem medo das pessoas do meio underground porque acabam ligando seu visual agressivo à atitudes agressivas de alguns. Mas esquecem que como em todos os lugares do mundo, há indivíduos de bom caráter e outros nem tanto.Não poderia ser diferente com o meio underground.
Outro filme em que a estética punk é abordada de maneira agressiva é no filme Taxi Driver (1976) de Martin Scorsese. A época em que o filme foi rodado coaduna com o período em que o mundo conheceu o punk. Foi clara a referência de Scorsese aos punks, como já foi dito em entrevistas do diretor, embora em nenhum momento Travis Bickle (Robert De Niro) declare ser punk. Travis é um motorista de táxi que de tanto ver coisas erradas na rua à noite, como a prostituição de crianças, se acha na obrigação de fazer algo, mesmo que esse algo não seja a coisa certa a fazer. Há uma mudança de atitudes do personagem e o seu estilo, corte de cabelo e parka militar é o ápice dessa mudança e revolta.
O punk continua influenciando muitas pessoas, elas estão por aí embora nem todas tenham uma cara estereotipada de punk, preste atenção nos detalhes. E atitudes.
Sumiço e parcerias
Há mais de três meses sumida pode parecer para muitos leitores que eu abandonei o blog e não quero mais postar. Mas estou aqui, sempre! Meu objetivo nunca foi a velocidade com que a postagem aparece, mas a seriedade com que é escrita. Depois que minha audiência subiu me senti na obrigação de postar o melhor e não qualquer coisa. Os posts foram ganhando mais atenção e deixaram de ser tão pequenos como no início do blog. Também passei a prestar mais atenção ao que falo, afinal, há pessoas lendo. Eu peço desculpas por tanto tempo afastada, tanto aos leitores (tenho certeza que não consegui responder todos como gosto de fazer) quanto aos meus parceiros de blog (deixei de visitá-los e comentá-los). Eu estava passando por um processo muito importante em minha vida, muitas mudanças.
Uma novidade que talvez tenha passado batido é a parceria oficializada com o Moda de Subculturas da Sana. Há bastante tempo a Sana vem contribuindo com seus comentários e eu também costumo frequentar seu blog que é rico em moda (de verdade) e consegue explicar muito do que usamos de uma perspectiva diferente, sociológica, histórica, filosófica, artística… É um ótimo conteúdo. Outra parceria que fiquei muito feliz é com o blog Moda Trash. Me identifiquei bastante com a Lauren e seu conteúdo, tudo absurdamente coeso, exótico e sério. Muita informação boa, sem deixar de lado o underground que nós amamos. Espero que vocês gostem e aproveitem as parcerias, quanto mais gente se unindo em prol da moda e dos estilos underground (segundo a própria Lauren), mais os leitores ganham em conhecimento.
Na Natureza Selvagem
“Se admitirmos que a vida humana possa ser regida pela razão, então está
destruída toda a possibilidade da vida.”
“Você não precisa de relacionamento humano para ser feliz, Deus colocou tudo
à nossa volta.”
(Alexander Supertramp)
“Os egoístas estão todos na fila acreditando e esperando para nos comprar mais tempo/ eu, percebo a cada suspiro, apenas tenho minha mente/ o norte é para o sul como o relógio é para o tempo/ há leste e oeste/ e vida por toda parte/eu sei que nasci/e sei que vou morrer/o entre isso é meu
eu sou meu/ e o sentimento/ foi deixado para trás/ toda a inocência perdida de uma vez/ mensagens importantes no olhar/não é preciso se esconder estamos seguros esta noite”.
(I am Mine – Pearl Jam)
Eu acredito que um dos grandes méritos do artista Paul Gauguin foi querer livrar-se de sua vida ordinária na Europa e mudar-se para o Taiti. Ele queria livrar-se dos condicionamentos causados pela sociedade e estar livre para criar, junto à natureza e os nativos que tanto admirava. Eu não gosto de suas pinturas, mas admiro sua personalidade. Engraçado é que Gauguin quando persegue esse ideal já não é mais um jovem rapaz.
Quando chegamos à idade dos vinte poucos anos, começamos a ter a real noção daquilo que realmente precisamos e daquilo que achamos que precisamos. E algumas pessoas talvez não tenham essa noção nunca. Eu lembro de quando eu tinha mais ou menos a idade de Christopher McCandless, eu havia conseguido meu primeiro emprego e estava prestes a me formar na faculdade (eu entrei aos 17 e saí aos 22), e eu gostava de estudar filosofia e psicanálise e acabava de descobrir o maravilhoso mundo da arte contemporânea. Eu mal penteava o cabelo e minhas roupas eram muito velhas, o fato é que na época eu não ligava para isso, pois via que um leque variado de coisas me preenchia. Ontem eu assisti “Na natureza Selvagem”, eu estava querendo assistí-lo há um bom tempo e sempre soube que o filme ultrapassaria minhas expectativas. É a história de Christopher McCandless, um jovem que decide levar uma vida livre, espiritualmente falando.
O verdadeiro Christopher McCandless/Alexander Supertramp e Emile Hirsch (abaixo) no filme “Na Natureza Selvagem”
Na abertura do filme, já temos uma demontração do que nos aguarda ao citar Lord Byron, um dos grandes ícones do Romantismo. E uma frase de Byron que remete à natureza no Romantismo:
“Há um tal prazer nos bosques inexplorados/Há uma tal beleza na solitária
praia/Há uma sociedade que ninguém invade/ Perto do mar profundo e da
música do seu bramir/ Não que ame menos o homem/Mas amo mais a
Natureza”
(Lord Byron)
E é esse Romantismo que preenche todo o enredo. Chistopher, adentra a natureza não como um espectador, mas com a noção de que ele mesmo é a natureza. E é nessa natureza, às vezes pitoresca em sua bela harmonia e muitas vezes sublime em sua impetuosa fúria que Chistopher irá viver. Christopher/Alex é parte dessa natureza selvagem.
Sua idéia de viver em meio à natureza, somente com as roupas do corpo partiu de Thoreau. Dizem que o autor visitava tribos indígenas usando apenas a roupa do corpo, enquanto seus contemporâneos empunhavam armas de fogo. De fato, Thoreau chegou a viver na floresta, ancorado em sua subsitência como agricultor. Para ele era melhor se defrontar com fatos essenciais da existência, a descobrir na hora da morte que não tinha vivido. Chistopher/Alex vive de sua própria caça e da alegria de viver. Mas há toda uma melancolia nessa alegria, a acidez da descrença no homem.
“Dois anos ele caminha pela Terra. Sem telefone, sem piscina, sem animais de estimação, sem cigarros. Liberdade total. Um extremista. Um inusitado viajante cujo lar é a estrada. Fugiu de Atlanta. Não deseja voltar porque o Oeste é o melhor. E agora depois de dois anos de caminhada aproxima-se a grande e final aventura. A culminante batalha para matar o falso ser interior e vitoriosamente concluir a revolução espiritual. Dez dias e noites de comboios de mercadorias e de boléias trazem-no para o grande norte branco. Sem continuar a ser envenenado pela civilização ele foge e caminha solitário pela terra para se perder em meio à natureza selvagem.”
“Você sabe, falo de livrar-se desta sociedade doente… Sabe o que eu não entendo? Porque as pessoas, todas as pessoas, são sempre tão más umas com as outras. Não faz sentido. Julgamento. Controle. Todas estas coisas… De que pessoas estamos falando? Você sabe, pais, hipócritas, políticos, canalhas.”
( Christopher McCandless/Alexander Supertramp)
Chistopher McCandless segue seus autores preferidos, Henry D. Thoreau, Leon Tolstói e Jack London. Abre mão de sua real identidade, para assumir o codinome de Alexander Supertramp, renascido de uma existência fútil ancorada em bens materiais e relações humanas hipócritas. Alex, não faz parte disso. Abandona sua família, guardando rancor por estes terem mentido sobre fatos de sua existência. E como diz Alexander Supertramp, a felicidade só é real quando partilhada. Não se pode alcançar a felicidade contando mentiras para quem amamos. Os pais de McCandless preferiam dar conforto financeiro e bens materiais, pois achavam que assim demonstravam amor e interesse pelo filho. E tudo que McCandless queria era a sinceridade e a liberdade:
“Eu vou parafrasear Thoreau aqui … ao invés de amor, que dinheiro, do que
a fé, do que fama, que equidade … dê-me verdade.”
(Christopher McCandless/Alexander Supertramp)
A direção de Sean Penn é surpreendente, conseguiu produzir um excelente filme que jamais vou esquecer. O filme é baseado no livro de Jon Krakauer, um jornalista que sempre se identificou muito com a história e a personalidade de McCandless. O jornalista teve uma longa negociação até a família concordar em contar fatos sobre a vida de McCandless. E a trilha sonora de Eddie Vedder, que sempre admirei e sempre vou admirar como pessoa e como artista, é um dos melhores pontos estéticos do filme.
Quando assisti “Na natureza selvagem” percebi que não poderia ser outra pessoa a criar as músicas do filme. McCandless/Alex Supertramp também me faz lembrar de Eddie Vedder no mar no videoclipe de “Oceans” e me fez lembrar também de “I am Mine”, uma música que não faz parte do filme mas poderia ser a trilha sonora de Christopher McCandless/Alexander Supertramp.
Oceans
I am Mine
Into the Wild (faz parte da bela trilha sonora do filme)
Outro excelente ponto do filme é o jovem ator Emile Hirsch, que interpreta um Alexander cativante, com todo seu empenho, físico e espiritual. E vejo que tenho boas lembranças dele interpretando o skatista (futuro punk) Jay Adams em Lords of Dogtown. Mas aqui Emile está em um papel dramático e prova que é um dos melhores atores jovens presentes na atualidade.
Mas há aquele momento fatídico do filme em que penso que McCandless abandona todos que o amam. E naquele diálogo tão belo entre ele e um senhor, que acaba virando seu amigo, o que brilha mesmo é a frase do idoso em sua longa experiência de vida:
“Quando você perdoa, você ama. E quando você ama, a luz de Deus brilha em você.”
Para quem viu o filme matar a saudade e para quem não viu ver o mais rápido possível:http://fyeahintothewild.tumblr.com/
A arte e suas representações sobre a finitude da vida
Alegoria do tempo desvendando a verdade – Jean François De Troy (1733)
“Vocês não são especiais. Você não é um floco de neve bonito ou original. Você é a mesma matéria orgânica decadente como todo o resto. “ (Clube da Luta)
“É uma coisa curiosa a morte (…). Todos nós sabemos que o nosso tempo neste mundo é limitado e que eventualmente todos nós acabaremos embaixo de algum lençol para nunca mais despertar. E, no entanto, é sempre uma surpresa quando isso acontece com alguém que conhecemos.” ( Raiz-Forte – Lemony Snicket)
Começo esse post com uma pintura de De Troy, porque acredito que a maturidade nos revela muitas coisas, entre elas o verdadeiro valor da vida e sua finitude. O tempo acaba despertando a verdade em nós. A arte nos revela diferentes leituras sobre a morte, de acordo com o período em que é produzida. Vanitas são uma espécie de natureza morta (still life) que proliferou na Europa nórdica e Países Baixos durante os séculos XVI e XVII. Embora Vanitas e o tema morte sejam comuns a qualquer cultura. No período medieval era comum essa arte estar ligada a práticas funerárias e o termo “Memento Mori” (Pensa na morte), que seria algo como “lembra-te homem de que morrerás um dia”, o que na Idade Média celebrava um ser humano ligado mais ao espírito que à matéria. No Renascimento passou a ser uma maneira de fazer o homem se lembrar de que a vida é muito curta para viver somente para agradar os outros e cultivar futilidades.
Pieter Claesz – Vanitas quiet life
Há elementos que são constantes nesse tema, como coisas apodrecidas (que lembram o envelhecimento), os relógios e ampulhetas (o tempo e a fugaz existência terrena). Também são comuns os instrumentos musicais, flores, borboletas e caveiras. O interessante desse tipo de arte, é a união de elementos que lembram a vida e outros a morte, como a dualidade de nossa existência. Mas qual o antecedfente desse tipo de arte? Podemos apontar o auge do flerte do homem (e artista) com a morte, na Idade Média.
Hans Holbein, o Moço – Gravuras de “A dança macabra” (1497-1543)



Detalhe de caveira ao lado da assinatura de Albrecht Dürer, 1513 – O Cavaleiro, a morte e o Diabo
A própria figura do Plague Doctor, doutor de pragas na Idade Média é usada ainda hoje como representação ligada à morte. O doutor de pragas na Europa possuía um conhecimento empírico ligado aos humores: sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático. O correto é que nenhum desses humores proliferasse sobre o outro, então eram feitos tratamentos para equilíbrio dos humores no paciente, entre eles sangrias. A teoria miasmática considerava que doenças como peste negra e a cólera eram causadas por uma forma nociva de ar (mau ar), miasma significa poluição. Os diversos tratados de saúde eram elaborados na tentativa de afastar a peste, muitas vezes de uma maneira supersticiosa, por exemplo, as pessoas deveriam andar contra o vento oeste que era propício ao avanço da peste. Os plague doctors vestiam uma máscara de bico de pássaro que ajudava a praga a sair do corpo do doente. Acreditava-se que a praga (em sua maioria a peste bubônica, mas haviam outros tipos de epidemia) era transmitida por pássaros e a função da máscara era justamente atrair a praga para curar o convalescente. Para a proteção do Plague Doctor, os olhos da máscara eram feitos em um material vermelho que acreditavam ser impermeável às doenças. Dentro da máscara havia diversos itens aromáticos, para proteção do ar pútrido que era visto como causa da infecção. Era também usado pelo doutor uma ponteira de madeira que era usada para examinar o paciente sem tocá-lo.
Desenho de Plague Doctor
Um plague doctor consola uma mulher que acaba de sofrer uma perda na obra do artista contemporâneo Bryn Barnard – The Plague Doctor
Plague Doctors no filme protagonizado por Nicolas Cage, Caça às Bruxas
Nessa época em que a peste se alastrou na Europa as representações de esqueletos “levando” pessoas embora era muito comum. Podemos apontar também as representações dramáticas da morte ou alusões à própria através de pinturas do Barroco e Rococó, como as representações de Nicolas Poussin. No século XVII o nome Arcádia evocava a tradição pastoral, o gênero poético que se desenvolveria desde a Grécia clássica. A idéia principal de Arcádia seria a vida dos pastores ao ar livre, recolhendo ovelhas durante o verão. Nesse clima os pastores tinham tempo de sobra para tocar flauta, compor poemas e talvez até declamá-los em sarau. Arcádia era o paraíso montanhoso da região do Peloponeso, habitada pelos árcades: pastores e caçadores. Era o paraíso romântico governado por Pã e habitado por ninfas, sátiros, centauros e bacantes.
A frase “Et in Arcadia Ego” não é encontrada em nenhuma fonte clássica conhecida, podendo significar em seu contexto original: “Eu, aquele que está morto, também vivi na Arcádia” ou “Eu, a morte, também estou na Arcádia”. Eis que no quadro de Poussin, Et in Arcadia Ego, quatro jovens pastores encontram uma tumba onde há essa frase escrita. Poussin nos faz perceber o quanto o ser humano é vulnerável em sua individualidade. “Na verdade os pastores nos dão a impressão de terem encontrado o primeiro indício da morte. É também o indício de que sua bela terra tem história, de que pessoas viveram e morreram ali, no entanto essa história foi totalmente esquecida” (BECKETT). Ainda sobre Beckett, o teórico nos fala que o que dá força a essa pintura são nossas próprias histórias pessoais. Transpomos o marco da maturidade quando adquirimos uma compreensão emocional da morte e de nossa própria insignificância relativa ao contexto da história humana. Gerações incontáveis viveram e viverão antes e depois de nós. Em todo o esplendor de sua bela juventude, os pastores precisam aceitar isso.
Nicolas Poussin, Et in Arcadia ego, 1638-1640: A amarga descoberta da morte ainda na juventude. Ela (a morte) também habita no paraíso terreno.
Leia História da Pintura de Wendy Beckett!
Club Kids e sua influência no Cybergoth
Dinheiro, Sucesso, Fama, Glamour

Lembro de quando foi lançado Party Monster, eu quis vê-lo logo. Não vi no cinema para meu profundo lamento, então aluguei e assisti em casa mesmo. Meu foco principal no filme: a excelente trilha sonora, a história do Club Kids ou início do movimento clubber, a excelente atuação do Macaulay Culkin como Michael Alig e claro, Marilyn Manson como Christina. Michael Alig era promoter quando conheceu James St. James (Seth Green), no surgimento do Club Kids que seria o início do movimento clubber. O filme foi baseado no livro Disco Bloodbath de James St. James. Porque estou falando do filme? Porque as loucuras como a festa do hospital, em que se vestiam de doentes e enfermeiras e a festa do caminhão, existiram de verdade, assim como tantas outras. Claro que os Club Kids foram uma baita influência para um monte de gente, desde o próprio Manson, passando por Jefree Star e Countess Grotesque. É bom dizer que a última é aparentemente cybergótica e que os cyber góticos apreciam muito o Club Kid, pois é uma das influências do estilo tanto musicalmente quanto esteticamente. Countess Grotesque é uma modelo e make-up artist, que diz que sua paixão é a criação de conceitos. Ela também nutre interesse pela fotografia, arte tradicional e digital, design de cabelos, roupas e estilo. Aliás se há algo que define os amantes do Club Kids é o fato de procurarem ocupações variadas e multimídia, assim como sua mistura de estilos.
Michael Alig (Macaulay Culking), comandando uma festa e Party Monster
Marilyn Manson no filme Party Monter e Jefree Star, cantor, compositor, maquiador, modelo e estilista
Countess Grostesque
Cena do filme Party Monter, Festa no Caminhão
Pessoalmente eu acho lindo quem sabe segurar um estilo cybergoth tão bem quanto a Countess Grotesque, as maquiagens, as roupas, os cabelos coloridos, as cores.. são para bem poucos. E ainda manter-se linda nesse estilo… é fabuloso! Pois as cores são justamente herança dos club kids, assim como o gosto exagerado para coisas incomuns e a mistura de estilos. Mas o cybergoth também é sombrio. Só que aí não temos mais o óbvio do sombrio, lidamos com a subjetividade do terror. Eu acho lindo esses estilos que lidam com o não óbvio. É fácil ser sombrio usando preto, mas ser sombrio usando roupas coloridas… Então observando a Countess Gortesque dá para ter uma idéia de maquiagens bem dramáticas e interessantes. E mais ainda, como ela consegue variações de uma mesma pessoa em seus looks, através de cores, formas de maquiagem e acessórios:
A Countess Grotesque é bem influenciada pelo Club Kids, às vezes seu visual parece o mais puro visual clubber, com direito à cores fluorescentes, acessórios e maquiagens dramáticas, muitas cores e mistura de estilos.
Barbie Girl
Variações do cybergoth style: Goggles, cyber falls, unhas coloridas, make-up colorida, vinil rosa e piercings
Aqui em um estilo mais básico, repleta de body modifications (eu adorei o estilo das unhas)
Em um estilo gothic diva, com direito à saia armada, corset, cabelos coloridos e over the knee boots envernizadas, no estilo demônia.
Cybergoth puro, com goggles, cyber falls, acessórios fluorescentes, furry leg warmers e plataformas.
Estilo gothic pin-up, uma graça o vestido em látex
Mais fotos de Countess Grotesque em:
http://countess-grotesque.deviantart.com/
Posteriormente pretendo publicar mais um post sobre conceitos filosóficos do Club Kids e do Cybergoth.
Reprodução parcial sem minha autorização no Brasil Metrópole
Eu ando desanimada com meu blog. As postagens que faço aqui são fruto de trabalho árduo, já que possuo vida pessoal e emprego para dar conta. Eu adoro postar aqui e até hoje não ganhei nada com isso, a não ser o prazer de postar e os comentários de leitores que gostam do blog e amigos que fiz através dessa ferramenta. Não pretendo parar de postar tão cedo, por causa do desrespeito de terceiros. Meu público é o underground, meu compromisso é o underground. Determinadas coisas me revoltam, como o uso de posts meus ou parte de posts sem o devido crédito. Eis que há mais ou menos duas semanas me deparo com essa reportagem (http://www.brasilmetropole.com/cultura/noticias-da-cultura/critica-comportamento/1889-o-estilo-skinhead.html), contendo uma parte do meu post daqui do blog (http://alienagratia.wordpress.com/2011/05/22/a-real-historia-dos-skinheads/). Reparem nas datas, o meu post foi escrito em maio e a reportagem desse jornal eletrônico é de julho. Me admira muito alguns repórteres copiarem textos de blogs e publicarem sem os créditos, dando a entender que o post inteiro é obra sua. Parte do meu texto foi reproduzido e eu já salvei a página aqui, caso essa reportagem desapareça da internet. Isso me aborreceu muito, tentei contatar o jornal, mas até agora não obtive resposta. Achei um desrespeito enorme da parte deles e resolvi me abrir nessa postagem. Espero que providências sejam tomadas, pois isso é muito sério , Brasil Metrópole! Você confiaria nas reportagens desse jornal eletrônico? E para quem pretende copiar posts sem o crédito do blog, não adianta tentar fazer escondido, porque eu vou saber.
Porcos Cegos
Se alguém me perguntar qual a melhor banda brasileira atualmente eu digo sem pensar: Porcos Cegos. A banda ainda permance underground, sendo mais conhecida em São Paulo. Faz um punk muito bom, mudou seu nome de Blind Pigs para Porcos Cegos, um momento patriota muito bem pensado. A banda foi formada em 1993, e segundo muitos críticos e fãs (incluindo eu) parece com o Rancid. O que para mim é um elogio, mas longe de ser parecida com qualquer outra banda acho que uma coisa define bem o punk dos rapazes: as letras são muito boas. Para uma época que possui uma música tão empobrecida como atualmente, gostar de rock é falar sempre no passado, pois hoje em dia parece ter só funk, happy rock, sertanejo e MPB fabricada. Claro que tudo isso com letras ácefalas. Eu tenho saudade da poesia do rock, nada melhor que ouvir uma banda punk com uma temática realmente punk, um visual realmente punk e com som e letras (punks) que fazem pensar. Para quem não conhece a banda deixo duas letras preferidas,”Geração Domesticada” e “Aos Bandeirantes” e gostaria muito que ouvissem Porcos Cegos, é uma experiência e tanto.
“Geração Domesticada”
Você conhece alguém cem por cento tolerante/ ou um adolescente que se
rotule punk / Sem cair em contradições/ e sucumbir na sua própria anarquia/Geração, geração domesticada/ geração domesticada/a resistência morreu /sem deixar nenhum legado/rebeldia se tornou uma fatia de mercado
você conhece alguém /plenamente satisfeito/ou um lugar onde tudo é
perfeito/e ninguém cai em tentação/nem se afoga na própria covardia
não há mais tempo para errar/não há mais tempo para errar/sou a mudança
que eu quero ver
eu devo estar velho ou ficando louco/nas nossas fileiras
agora restam poucos/poucos dispostos a seguir na contramão
quando é tão fácil ceder a autonomia
mal educados/ somos os dados não computados/ felizes por não termos cultura
Dave Cook
Dave Cook é um ilustrador e designer gráfico de Atlanta, E.U.A. Suas inspirações são os filmes de terror trash, hot rods, as pin-ups, tattoos, rock e o roller derby, para qual ele bola inúmeros cartazes de campeonatos americanos. Achei seu traço bem bonito e com uma influência new old school bastante evidente. Aí vão alguns de seus trabalhos:
Dave Cook

Terror Trash e Rock

Roller Derby










































































